09.07.2010
Nydia Negromonte

Nascida em Lima, no Peru, em 1965, Nydia Negromonte veio para o Brasil aos dois anos de idade. Morou em São Paulo, em Porto Alegre e, finalmente, estabeleceu-se em Belo Horizonte – onde vive até hoje. “Mantive a ligação com minha terra natal e sempre levei comigo o sentimento de estrangeira”, conta ela, uma das artistas selecionadas pela Bolsa Iberê Camargo 2009.
Talvez por isso, Nydia tenha iniciado nas artes pelo caminho de uma observação detalhada da realidade a seu redor: entorno, arquitetura, paisagem, pessoas e objetos que participavam de seu cotidiano. “Esta observação era processada de maneira lenta e minuciosa e já trazia em si o desejo de buscar subsídios para o reconhecimento de um vocabulário gráfico próprio”, lembra. Segundo ela, seu interesse pela arte surgiu tardiamente: aos dezesseis anos, após conhecer o ateliê de um amigo. Motivada pelo desejo de desenhar, ingressou em um curso livre na Escola Guignard. Daí para a graduação em artes plásticas da Escola de Belas Artes da UFMG, foi um passo.
Com mais um, ela realizou sua primeira exposição, na Itaúgaleria de Belo Horizonte, em 1987. Na ocasião, apresentou uma série de desenhos realizados durante uma estada de três meses na cidade de Arraial do Cabo, no Rio de Janeiro, feitos a partir da contemplação da paisagem local. Mas, pouco a pouco, seu trabalho foi mudando de proposta. “Passei a discutir, mais frontalmente, questões intrínsecas à linguagem do desenho, como linha e espaço, sobretudo na pesquisa de como esse confronto se dava”, explica ela. “O desenho não mais representava, mas apresentava suas questões no próprio corpo da obra”, completa. A experimentação em obras de grande escala, com sobreposição de gestos largos, foi favorecida pelo ateliê Galpão EMBRA, do qual Nydia participou entre 1989 e 1998. O espaço, com 1000m², era também um ponto de encontro e de grande interlocução com os demais artistas participantes: Fabíola Möulin, Júnia Penna, Mabe Bethônico, Marconi Drummond, Renato Madureira, Ricardo Homem, Roberto Bethônico e Solange Pessoa.
Como consequência, ela foi se distanciando do rigor da composição e buscando novas potencialidades espaciais. “As linhas se materializaram, saindo do plano do papel e do tecido para buscar a tridimensionalidade do espaço físico”, conta. O resultado deste novo processo foi uma série de trabalhos feitos sobre a parede com fios de cobre enrolados – exposta em São Paulo, no Rio de Janeiro, em Belo Horizonte e em Porto Alegre, e integrante do 16º Salão Nacional de Artes Plásticas da Funarte, em 1998. “As instalações não tinham projeto prévio e eram processadas por meio do embate direto com o espaço expositivo”, explica a artista.
Imbuída pro esta linha de pesquisa, Nydia deparou-se com uma grande mudança ao se mudar para Barcelona, na Espanha, em 1997 – dando início a um processo de subsequentes transformações em sua obra. Primeiramente, o trabalho no pequeno apartamento onde morava funcionou como um importante contraponto às amplas instalações do Galpão da EMBRA. “Em função dessa contingência, iniciei uma série de desenhos em formatos excessivamente horizontais, reaproximando-me do universo do cotidiano doméstico”, destaca.
No ano seguinte, ingressou em um curso de especialização em gravura na Escola de Belas Artes da Universidade de Barcelona. Para seu trabalho de conclusão de curso, criou a série Almacén, feita com papel de arroz de baixa gramatura (6g) sobre objetos que serviam como matrizes. “A ‘impressão’ se dava através da borrifação de água sobre ambos, afim de que se aderissem completamente. Após a total secagem e o desprendimento, ficava ali gravado todo seu volume e forma”, explica Nydia. O papel era, então, preso na parede, de maneira a “reconstruir” o objeto. “De alguma maneira, gosto de pensar que esse procedimento, ao mesmo tempo em que materializava a ausência, perseguia a memória do objeto-matriz”, analisa.
De 1999 a 2001, foi artista residente do HANGAR – Centre de Producció d’Arts Visuals i Multimèdia na capital catalã. Com experiências diversificadas e de volta ao Brasil, Nydia reuniu-se com Mabe e Roberto Bethônico em uma nova proposta: a exposição Indentificador, que, mais do que uma mostra, constituiu um amplo projeto de imersão na Companhia Energética de Minas Gerais (CEMIG), durante seis meses. “A empresa foi tomada, esse momento, como meu espaço efetivo de trabalho”, destaca. “Além da observação da rotina de trabalho empresarial ali realizado, pude travar uma estreita convivência com o espaço físico e, por extensão, com a ‘paisagem externa’, relacionada ao ramo de atividades prestadas pela empresa: usinas hidrelétricas, cidades relocadas, repovoamento de rios, etc.”, explica.
Lá, buscando informações e relacionando-se diretamente com os funcionários, Nydia realizou as ações Copinha, em que criou um espaço múltiplo de convívio para a equipe sob o formato de uma “distribuidora de energia comestível”; Feliz aniversário!, comemoração coletiva dos nascidos no dia 18 de setembro na Galeria de Arte da CEMIG, gerando uma nova forma de relacionamento entre as pessoas; e Topônimo, uma série de placas de sinalização com os nomes de todas as cidades realocadas para a construção das hidrelétricas em Minas Gerais. “Um ponto alto que vejo em todo esse processo é a eterna negociação para efetivar, de fato, a obra. É esse campo de articulação que me interessa. Nessa fonte orgânica de pesquisa, busco subsídios para a criação dos projetos”, reflete ela.
Neste sentido, Nydia apresentou, na Fiat Mostra Brasil, em 2006, a obra Casa das Vitaminas, uma instalação que distribuía sucos de frutas por meio de uma caixa d’água com tanques espalhados sobre as mesas, liquidificadores e gôndolas-fruteiras. A proposta era criar um misto de zona de trabalho e espaço de convívio. “Para mim, a ideia de um projeto ou o desejo subjetivo de construção de uma ideia é sempre permeável à participação do outro”, aponta. “Tanto Copinha como Casa das Vitaminas, são dispositivos para a participação e absorção pública. Permitem a criação conjunta de um novo contexto, de uma nova realidade em que todos são participantes: artista, obra, público, entorno. É um tempo-espaço de troca e transformação”, analisa.
Em paralelo, Nydia vem desenvolvendo desde 2003 a série Lição de Coisas, criada a partir do livro Lliçons de Coses, uma espécie de manual ilustrado sobre assuntos gerais, adquirido ainda durante sua estada em Barcelona. “Para mim, as coisas, em si mesmas, são portadoras de ensinamentos. A simples rotina diária está sobrecarregada de fenômenos e aprendizados”, reflete, explicando o porquê da escolha da publicação para uma trabalhos que se iniciaram com a imagem de três pessoas que se juntam para construir uma esfera de argila gigante. “É uma ação narrativa de natureza absurda, estruturada tal qual um story board e construída a partir da apropriação de gravuras contidas no livro”, conta.
Em Lição de Coisas nº3, de 2008, figuras humanas se relacionam com enormes frutas. Já em Lição de Coisas nº2 – projeto iniciado no mesmo ano, submetido à Bolsa Iberê Camargo, no ano passado, e que a artista vem executando desde então –, são justapostas cenas e situações encontradas no livro a fotos apropriadas do arquivo da família da artista. “Nesse trabalho procuro as cenas coincidentes entre as fotos afetivas e as ilustrações do livro. Paradoxalmente, são muitos os encontros! Penso que é isso mesmo. Todos fazemos e passamos mais ou menos pelas mesmas coisas”, analisa. A partir destas imagens, ela propôs desencadear um processo colaborativo distribuindo doze dípticos para doze leitores, que abrigaram a obra em sua casa, criaram um texto baseado nela e fizeram um registro fotográfico.
Agora, Nydia está elaborando uma espécie de contra-resposta, ainda sem formato definido. A partir daí, está em projeto “desenhar” outras genealogias possíveis. “Estou muito entusiasmada em buscar um outro formato expositivo para o Lição de Coisas nº2. Ainda esse ano, tenho planos de apresentar este trabalho, sem que isso configure uma exposição de resultados”, anuncia. “Mais que mostrar ou editar os resultados parciais já gerados penso em criar um ambiente propositivo, onde os visitantes possam assumir o lugar de agentes construtores desta ‘outra genealogia’”, explica ela.
Afeita a buscar os indivíduos e a trazer à tona suas vivências, Nydia busca a experimentação conjunta para amplificar a ação de seu trabalho. “As pessoas são convidadas a participar em todos os níveis da criação, construção e finalização das obras. Gosto de estar na posição de mediadora de todo esse processo. Eu, localizada entre o projeto e os agentes construtores e participantes da obra”, enfatiza.
Imagens: divulgação
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