11.06.2010
A arte do risco

As obras que compõem a mostra Rebelião em Silêncio, retrospectiva de Rebecca Horn em exibição até o dia 18 de julho no Centro Cultural Banco do Brasil, no Rio de Janeiro, refletem a trajetória de uma artista indiscutivelmente versátil. Com 66 anos de idade, dos quais dedicou cerca de 40 à prática artística, Rebecca acumula experiência nos mais diversos suportes: já trabalhou com pintura, gravura, instalações, escultura, performance, vídeoarte, cinema, criação de objetos, escrita e direção de óperas. Além disso, foi uma das pioneiras no uso da tecnologia em obras de arte ao criar, no início dos anos 1970, objetos mecânicos dotados de mobilidade, com os quais interagia em suas performances.
Apesar de estar entre os grandes nomes da arte contemporânea (possui obras em algumas das coleções mais importantes do mundo, como as da Tate Gallery, de Londres, e dos museus Guggenheim e MoMA – ambos de Nova York) e ter realizado uma produção tão extensa e diversificada, esta é a primeira vez em que a artista alemã expõe no Brasil. A mostra no CCBB Rio é uma versão de outra, apresentada no Museu de Arte Contemporânea de Tóquio ao longo do ano passado. Composta por 25 obras, algumas da própria artista, Rebelião em Silêncio apresenta ainda uma seleção textos escritos por ela.
Embora Rebecca seja mais conhecida por suas performances, ela também considera sua obra escrita de grande importância para sua formação artística. “Escrevi meus primeiros textos em 1969 e 1970, pois, na época, tive de passar vários meses em um hospital e em um sanatório. Eu estava completamente separada do mundo externo, ninguém tinha permissão para me visitar; e assim, foi apenas por meio de minha escrita que eu consegui manter uma ligação com o mundo externo. Preocupada constantemente comigo mesma e isolada em um quarto, incapaz de escapar de meus próprios pesadelos – essa era a minha situação. As paredes do meu quarto estavam cobertas com pequenos esboços e anotações, e assim que a porta ou a janela eram abertas tudo começava a se mover, mesmo com um vento suave”, lembra a artista, que foi internada em um hospital psiquiátrico logo após a morte de seus pais – época que aponta como sendo a mais conturbada de sua vida.
Em muitos casos, o texto escrito serve como ponto de partida para os trabalhos de Rebecca. Ela conta que, ao longo de seu processo de criação, um pequeno poema pode resultar em um desenho, capaz de inspirá-la para uma performance. Esta, por sua vez, pode ser registrada em vídeo, e este vídeo pode dar origem à base conceitual de uma grande instalação. Esta interação entre as várias mídias é talvez a característica central de Rebelião em Silêncio, e perpassa toda a obra da alemã. A retrospectiva apresenta ao público uma artista que transita entre as possibilidades de cada um dos suportes utilizados, buscando aquela que julga a melhor maneira de expressar suas ideias. Por isso, Rebecca ficou famosa no cenário internacional como uma criadora inquieta e, ao longo de sua carreira, sempre obteve boa repercussão junto à crítica.
Marcello Dantas, produtor e curador responsável pela montagem do CCBB Rio, almejava trazer uma mostra da artista para o país desde 1998. Além de sua versatilidade, interessa-lhe o experimentalismo de Rebecca. “Risco é uma palavra fascinante. Ela define, ao mesmo tempo, o ato do riscar de um lápis sobre um papel, marco de nascimento de qualquer arte, até o ponto de desequilíbrio em que a boa arte deveria existir, no território do desconhecido, do desconfortável e do incerto. Arte e Risco são palavras que andam juntas. Dos termos dos seguros que garantem a obra contra riscos até a ideia de fronteira de linguagem. Fazer Arte é arriscar, desconfortar, deslocar, revalorar a matéria e flertar com o perigo, com a possibilidade da perda. A matéria-prima fundamental de Rebecca Horn é o risco”, diz.
Este desconforto ao qual o curador se refere pode ser percebido nas obras em exibição no CCBB. Concert for Anarchy (Concerto para Anarquia), por exemplo, é uma performance que consiste em deixar suspenso no ar um piano de ponta cabeça, de tal forma que sua queda pareça interrompida. Em Rebelião em Silêncio, a obra pode ser vista na forma de um registro em vídeo, mas em sua montagem original os visitantes transitavam livremente por baixo dela, experimentando uma sensação de grande vulnerabilidade. Universe in a Pearl (Universo numa Pérola), a primeira obra que se vê ao entrar no prédio do CCBB Rio, também transmite a sensação de perigo e instabilidade. “Ela traz um jogo de percepção, reflexão e movimento que consegue fazer o espectador sentir que não é a obra que se mexe, mas sim o prédio inteiro que dança, seduzido pelo movimento da obra”, diz Dantas. Esta é uma boa metáfora para a obra da artista que, ainda nas palavras do curador, “mantém uma forte poética de confronto com o perigo. O espectador não consegue ser indiferente à sua obra, primeiro pelo instinto e, depois, pela reflexão”.
Rebelião em Silêncio pode ser visitada de terça a domingo, entre as 10h e as 21h. O CCBB Rio fica na Rua Primeiro de Março de 66, no Centro do Rio de Janeiro. A entrada é franca.
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