21.05.2010
50 anos de Brasília

Em 21 de abril, comemorou-se o 50º aniversário da inauguração de Brasília. Para celebrar a ocasião, foram organizadas diversas exposições dedicadas à cidade, com diferentes abordagens. Algumas trabalham especificamente com aspectos históricos da construção da cidade, mas há também aquelas que se dedicam às obras de arte expostas em espaços públicos da capital brasileira, ou à produção contemporânea dos artistas locais.
Arquivo Brasília: cidade imaginário, em exibição no Espaço Marcantonio Villaça e curada por Renata Azambuja, pesquisadora especializada em História da Arte Moderna e Contemporânea, é uma das mostras realizadas em razão do qüinquagésimo aniversário da cidade. Trabalhando principalmente com a memória afetiva dos habitantes da capital brasileira, o recorte feito por Renata instiga o visitante a refletir sobre a ocupação do espaço por artistas brasilienses, seja por meio da arte urbana ou pelo uso de referências a prédios e lugares da região.
“Pode-se dizer que dois fatores contribuem para a interação com os espaços públicos de Brasília pelos artistas: o desejo de interferir nos espaços públicos em razão do próprio Plano Piloto e uma forma de resposta a um circuito artístico acanhado. Ora os artistas se apropriam desse espaço poeticamente, ora de uma forma transgressora”, diz Renata sobre as obras presentes na mostra. “Entretanto, independentemente da maneira como o artista interage com a cidade, mais ou menos criticamente, nessa ou naquela linguagem, percebe-se a vontade de exercer uma reflexão sobre o local onde vive e que é a capital do Brasil – uma reflexão que se coloca, tanto de forma afetuosa como crítica”, completa.
Por sua vez, a exposição Foto na Hora: Lembrança de Brasília tem um enfoque bastante subjetivo, pois é composta a partir de trabalhos de um único artista – o fotógrafo Joaquim Paiva. Embora tenha nascido em Vitória, no Espírito Santo, Paiva viveu mais de trinta anos no Distrito Federal, período no qual fotografou intensamente diversos pontos da cidade. A mostra, em exibição na Galeria Vitrine, é um recorte feito pelo próprio artista, que é também o dono de uma das maiores coleções de fotografia do Brasil, composta por mais de 2000 peças. A maior parte das imagens expostas foi registrada na década de 1970, quando ainda existiam diversas construções provisórias em Brasília, o que confere importância histórica ao conteúdo das obras em exibição.
Mas a mostra mais abrangente organizada em razão do aniversário da cidade, tanto pela quantidade de obras (são cerca de 200) quanto pelo número de aspectos abordados, é Brasília – Síntese das Artes, em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil - Brasília. A curadora da mostra é Denise Mattar, que pela primeira vez trabalha com uma montagem voltada especificamente para a cidade. “Alguns anos atrás, fiz uma grande exposição sobre Juscelino Kubitschek, que havia realizado uma mostra de artes em Belo Horizonte em 1944. Naquela ocasião, eu descobri a estratégia de JK, um plano de desenvolvimento nacional que envolvia diretamente a cultura. Foi o único presidente brasileiro que fez isso até hoje. E daí, inevitavelmente, as pesquisas me levaram até a construção de Brasília”, explica a curadora.
A exposição é dividida em três núcleos. O primeiro deles, Arte e Utopia, é um apanhado de obras pertencentes a acervos públicos da capital, compradas especialmente para a sua inauguração. “São obras encomendadas especificamente para Brasília, muitas vezes pelo próprio Oscar Niemeyer. São quase todas figurativas, representando um segundo momento do modernismo brasileiro. Estão presentes obras de artistas como Burle Marx, Volpi, Portinari, Bruno Giorgi e Di Cavalcanti – é um panorama daquilo que havia de melhor na arte brasileira à época”, explica Denise. Também nesta seção da mostra estão fotografias de obras e monumentos afixados em espaços públicos.
Uma das obras presentes em Arte e Utopia é um óleo sobre tela raríssimo, pintado por Oscar Niemeyer, o arquiteto responsável pelo projeto dos prédios públicos da capital brasileira, e que está sendo mostrado ao público pela primeira vez. “Esta obra tem uma história bastante engraçada. Em 1959, foi realizado o Congresso Internacional das Artes, que se enquadrava em um projeto para apresentar Brasília para intelectuais de todo o mundo. Nessa ocasião, o chanceler francês André Malraux disse ao Niemeyer que achava Brasília um dos eventos arquitetônicos mais importantes desde as colunas gregas, e que frequentemente pensava que lindas ruínas Brasília seria no futuro. Niemeyer ficou com essa ideia na cabeça, e acabou pintando um quadro de como ele imaginava que seriam estas ruínas”, conta Denise.
O segundo núcleo da exposição, intitulado Uma Central de Sonhos, é dedicado a um período específico da arte brasiliense: os primeiros anos após a criação do Instituto Central das Artes (ICA), da Universidade de Brasília. “Na construção da cidade, muitos artistas vieram de outros lugares para viver este novo ambiente, e deram à capital um clima de experimentação. Muitos trabalhavam na universidade, e acabaram gerando uma integração de todas as formas de arte. Havia alunos de artes plásticas trabalhando nos canteiros de obra, buscando inspiração nas próprias construções. O Cildo Meireles é um exemplo de artista que foi para lá e trabalhou com essas pessoas. Depois, voltou para o Rio e criou um grupo de experimentação a partir daquilo que conheceu em Brasília”, explica a curadora.
O terceiro e último núcleo, O Sonho Acabou?, é um apanhado de obras feitas por onze artistas contemporâneos como Rodrigo Paglieri, Elder Rocha Lima e Karina Dias – todas inéditas e realizadas especialmente para a mostra. “São todas de artistas radicados em Brasília, ou mesmo nascidos lá. Como o tema é muito ligado ao cenário atual, chamei a Marília Panitz para colaborar na organização deste núcleo. Ela é uma curadora de muita atuação local, com conhecimento dos artistas e dos portfólios de Brasília. Depois de escolhermos os convidados, conversamos com eles e demos total liberdade para a criação. A única coisa que pontuamos foi a necessidade de uma abordagem poética e afetiva em relação à cidade. E tivemos como retorno um conjunto de trabalhos muito interessante. Reflete muito o amor deles em relação à capital”, conclui.
Brasília – Síntese das Artes fica em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil, em Brasília, até o dia 27 de junho. Pode ser visitada de terça a domingo, entre as 10h e as 21h. O CCBB Brasília fica no SCES, trecho 2, lote 22. A entrada é franca.
Imagens: divulgação e Mila Petrillo
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