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28.11.2008
Gerson Reichert

“Sou uma pessoa crítica, de distanciamentos, mas ao mesmo tempo que dedico um pensamento crítico sobre o mundo em que vivo, tento manter uma atitude positiva, que é da onde vem o meu fazer.” Assim se define o porto-alegrense Gerson Reichert, aluno do curso de Artes Plásticas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e artista selecionado pela Bolsa Iberê Camargo 2008 para receber destaque na Revista Digital.

“O desenho sempre foi para mim uma necessidade, e desde cedo fez parte da minha vida”, lembra. Quando trocou o curso de Comunicação Social da PUCRS pelo Instituto de Artes, no início dos anos 90, Reichert inseriu-se em um contexto estimulante para quem se interessava pelo campo: “Tive contato com a produção de Iberê Camargo, o que foi sem dúvida um grande estímulo. No IA, pude conhecer artistas que trabalhavam exclusivamente com o desenho, como Tereza Poester e Flávio Gonçalves, entre outros”, conta. Assim, começou sua formação na área, valorizando o gesto e a ação física na criação de seus trabalhos. As primeiras exposições individuais vieram pouco tempo depois, no Museu do Trabalho de Porto Alegre: Desenhos, em 1993, e Gravuras e Desenhos, em 1995 – ano em que participou, ainda, de sua primeira coletiva.

O artista interessava-se também pela gravura em metal, e chegou a ter aulas com Eduardo Haesbaert, mas sua aproximação em relação à técnica funcionava mais como um meio de exploração do desenho. Foi só em 2003 que Reichert trocou de suporte, dedicando-se à pintura. E mesmo ciente de que os novos trabalhos exigiriam mais horas de ateliê, um maior número de materiais e, conseqüentemente, custos mais elevados de produção, decidiu mergulhar neste universo. “Eu queria uma experiência radical de imersão. Sobretudo, me interessa na pintura a total ausência de intermediários, a expressão direta não mediada, a integridade da experiência”, explica o artista.

Nesta transição, preocupava-se em manter a gestualidade característica de seus desenhos, dando materialidade ao traço pintado. Para tanto, passou a usar uma grande variedade de “modulações” para a tinta a óleo: variações de espessura e liquidez, opacidade e brilho, transparência, textura e etc. “A atitude ainda era a do desenho, o percurso da linha, seu rastro, mas o modo de estruturação da pintura, o entrelaçamento das camadas, não seguia um fluxo tão constante. Os gestos que agora cortavam a tela, sem perder seu caráter de ação, eram mais calculados, conscientes, e isso tornava as pinceladas mais evidentes”, analisa.

Estimulado desde o início de sua carreira pela interação com outros materiais que integravam o ambiente do ateliê, Reichert começou, ainda em 2003, a trabalhar com as revistas Humboldt – publicações semestrais editadas na Alemanha e distribuídas para a América Latina e a Península Ibérica, com debates culturais internacionais –, sobre as quais intervinha com pinturas e desenhos nas páginas. Desenvolvendo a relação entre palavra e imagem, gesto e superfície impressa, o artista buscava a fusão da pintura e do desenho com a estrutura rígida da publicação, criando uma nova imagem. “Linguagens distintas, quando colocadas em relação num mesmo espaço, só criam uma nova linguagem quando se reconfiguram, se entrelaçam uma em função da outra”, comenta. Da maturidade de suas pesquisas, surgiu a mostra Humboldt revista, realizada em 2007 na Subterrânea Atelier, na capital gaúcha.

Em 2008, Reichert realizou mais uma individual, Desenhos e Pinturas sobre Revista Humboldt, no Memorial do Rio Grande do Sul, e participou de cinco mostras coletivas. Além da Bolsa Iberê Camargo, foi contemplado com o Prêmio RBS Artista Revelação e com o Prêmio Açorianos Artista Revelação. Para o próximo ano, está montando um ateliê para trabalhar com pinturas em grandes dimensões – dando continuidade a um processo iniciado em 2007. “Isto me interessou bastante pelo maior grau de envolvimento físico entre o corpo e o espaço”, explica o artista. “Quando pinto, trabalho questões próprias da iconografia da pintura abstrata, noções ligadas à materialidade e ao corpo, como o ato físico de pintar. Mas ao mesmo tempo, procuro manter o diálogo com aquilo que me cerca, com o que me envolve de imediato.”
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