02.05.2008
Guilherme Maranhão

O artista carioca Guilherme Maranhão, 33 anos, foi um dos dez finalistas da Bolsa Iberê Camargo 2007. O artista apresentou o projeto Pluracidades, para ser desenvolvido no Blanton Museum of Art, nos Estados Unidos. Atualmente, Guilherme vive em São Paulo e investiga um caminho entre a fotografia e o lixo.
Desde cedo, Guilherme já fotografava para ganhar a vida. “Em 1994, eu me juntei a um grupo que discutia a produção fotográfica no Museu da Imagem e do Som em São Paulo. Foi aí que tudo mudou de caminho, comecei a pesquisar linguagem, fotografia, formas de impressão”.
O primeiro trabalho de Guilherme que virou exposição foi uma série que o artista fez sobre a doença e o falecimento de seu pai. “Fotografei com uma câmara antiga do avô da minha mãe, em rolos e rolos de filme tcheco antigo. O filme e câmara eram tidos como inúteis e no entanto eles registraram bem a história que eu queria contar”, relata.
A idéia do reaproveitamento de materiais vem da cultura familiar de Guilherme. “Em casa tudo se aproveitava de algum jeito, se não fosse ali, a gente achava alguém que quisesse aquilo e levasse para usar. Daí, eu transformava o que eu tinha no meu equipamento fotográfico. Aos poucos os amigos perceberam e hoje as pessoas ligam perguntando se eu quero isso ou aquilo ao invés de eu ter que correr atrás do lixo antes dele partir para outra dimensão, a da caçamba de rua”, conta.
Guilherme adapta e se apropria de materiais quando constrói o seu equipamento fotográfico. “Eu já fiz câmaras fotográficas clássicas, de madeira e outros materiais, na falta de câmaras daquele determinado tipo disponíveis para comprar por preços razoáveis. O fato é que recentemente o lixo que me aparece é mais cibernético do que analógico”, constata.
Em suas pesquisas, Guilherme descobriu o professor Davidhazy, que explica que o scanner de mesa é uma câmera fotográfica de fenda presa dentro de uma caixa. A partir disso, o artista fez alguns experimentos, fazendo adaptações quando surgiam dificuldades. “Os experimentos se resumiam a libertar o scanner da caixa onde ele funciona e fazer com ele funcione sem uma série de peças, restando só a parte câmara fotográfica digital”, explica.
Esses experimentos de Guilherme surgiram de um desejo de conhecer a câmera fotográfica de uma maneira mais profunda e dominar o processo de produção de imagem. “Entender mais e mais que produzir uma imagem fotográfica é algo muito simples e viável, não dependendo dos últimos avanços da indústria”, enfatiza.
O resultado estético a que chega ao utilizar esses novos equipamentos, além das escolhas de Guilherme, dependem muitas vezes do acaso para se complementarem. “Materiais e equipamentos fotográficos que já ultrapassaram sua etapa de plenitude tendem a ser um tanto mais teimosos que outros. Às vezes, me cabe a tarefa de encontrar um processo de geração de imagem que seja apenas mais adequado ao assunto do que outro. Às vezes, pesquiso uma determinada maneira de fazer imagens com um certo trabalho em mente. Às vezes, as limitações são libertadoras. As lacunas, os vazios e as falhas devem estar presentes de alguma maneira no trabalho”, conta.
Recentemente, Guilherme trabalhou em uma série de paisagens marítimas e em outra de auto-retratos, ambas realizadas com fotografia analógica. O artista também continua produzindo a série Pluracidades (imagens acima).
|