Sobre intervenções e deslocamentos

Hélio Fervenza é artista e, desde 1994, atua também como professor do Departamento de Artes Visuais e do Programa de Pós-Graduação do Instituto de Artes da UFRGS, e coordena o grupo de pesquisa Veículos da Arte. Nascido em Santana do Livramento, cidade a cerca de 480km de Porto Alegre, ele vive na capital há anos, onde trabalha com meio tão diferentes quanto gravura e vinil adesivo. Noções de apresentação, vazio e intervalo são frequentes em suas obras, que passem também pela investigação dos processos de apresentação em relação à noção de arte.
Atualmente, Fervenza apresenta exposição Traveling:Atelier no Atelier Subterrânea, em Porto Alegre. Na conversa abaixo, ele fala sobre este e outros trabalhos, além de aspectos de suas pesquisas acadêmicas.
Na instalação Traveling:Atelier, você usa objetos e recursos gráficos que remetem diretamente à vida urbana, ao cotidiano das cidades. De que maneira este trabalho é um desdobramento de suas pesquisas anteriores com signos e pontuações?
A instalação Traveling:Atelier surgiu primeiramente por um convite da Lilian Maus e do Atelier Subterrânea. As características dos lugares onde exponho, sejam elas arquitetônicas ou simbólicas, sempre foram importantes para mim, como parte integrante do trabalho que faço. Neste caso, o fato de o Atelier Subterrânea ser, ao mesmo tempo, um espaço de exposição e de trabalho, levou-me a observar o encontro desses dois aspectos. Pensar o lugar e as funções do ateliê nos dias de hoje foi também algo que me instigou bastante no processo de criação.
Por diversos motivos, venho trabalhando há alguns anos sem ateliê, elaborando minhas idéias em diferentes lugares (laboratórios fotográficos, empresas e oficinas especializadas...). Isto implica um trânsito no fazer. Um dos lugares onde frequentemente penso sobre os projetos é dentro do transporte coletivo, na cidade ou em viagem. Em projetos anteriores, foi dentro de um ônibus que capturei imagens da cidade ou da paisagem, vistas através dos avisos de emergência colados nos vidros. Por outro lado, como faço instalações e intervenções, o espaço de trabalho, para mim, acaba sendo também o espaço de exposição.
Ao invés de utilizar vírgulas ou parênteses, na atual exposição são os objetos e imagens que pontuam o espaço. E como em algumas instalações anteriores, eles começam ou terminam no exterior do espaço expositivo, o que dá permeabilidade a esse espaço. Ele se torna algo poroso, um campo aberto às relações, no qual há passagem, deslocamento, mas também há encontro. Como em alguns trabalhos anteriores, ocorre uma problematização, só que de outro ponto de vista e de outra forma, da imagem e da sua produção nos dias de hoje.
Sobretudo nos trabalhos que lidam com pontuações, está muito presente a ideia de intervalo, de vazio, que é um conceito abstrato. Inseri-los por meio de símbolos conhecidos e reconhecidos por quase qualquer pessoa tem o objetivo de tentar materializá-los? No contexto de uma exposição, a ausência (o intervalo) não acaba se transformando em presença do próprio espaço em que se insere?
Tem uma frase do escritor François Cheng que gosto muito e que diz: “Em tudo o cheio faz o visível da estrutura, mas o vazio estrutura o uso”. O vazio é uma noção que não pode ser pensada sem seu oposto, e nesse sentido ela não surge isolada, absoluta. O vazio surge de uma relação, como, por exemplo, entre as bordas, as paredes de uma xícara e o seu espaço interno, oco. Às vezes, ele pode surgir de uma expectativa: esperávamos que houvesse algo num dado lugar e momento, mas isso não se encontra ali. Pode surgir de algo que se interrompe. Para mim, então, o vazio não é um objeto, mas um estado transitório que pode ser experimentado. Ao invés de nos perguntarmos o que ele é, ou onde ele se encontra, talvez devêssemos nos perguntar: quando ele surge?
O vazio não é o nada, mas a abertura da possibilidade, potencialidade. Ele não nega o espaço expositivo; ao contrário, dialoga com ele o tempo todo, ativando nesse processo a percepção e o pensamento. Afinal, uma folha de celofane transparente e incolor é mais vazia que a parede branca? Ou a parede branca, seria mais vazia que o espaço sem mobiliário? O vazio introduz, no espaço expositivo, de diferentes formas, a percepção de uma interrupção na sequência de signos, imagens ou objetos, e traz junto a noção de não preenchimento, de descontinuidade, de ausência, de invisibilidade. As operações com as pontuações na arquitetura dos espaços possibilitam essas relações, que dependem e são ativadas pelos visitantes.
Também a exploração deliberada do espaço expositivo, no sentido artístico ou até curatorial, pode influir na obra. No seu trabalho, por exemplo, tanto pela disposição dos objetos quanto pelos materiais utilizados, algumas obras ganham sentidos distintos de acordo com a posição ocupada pelo espectador. Qual é o objetivo de propor estes processos de re-significação?
A instalação possui poucos elementos, que se repetem ou são mostrados em tamanhos ou posições diferentes. Ao mesmo tempo, eles são separados por intervalos, por espaços vazios, por descontinuidades. A posição ocupada pelo espectador é fundamental, pois é o deslocamento dele no espaço que vai produzir as relações entre os diferentes elementos, que vai efetivar as interpretações. A proposta abre-se, assim, ao pensamento, à dúvida, ao imaginário, e talvez, a um estranho humor. Ela enfatiza o fato de que a arte necessita de sujeitos, e das posições desse sujeito diante dela assim como diante do mundo, para que eles se tornem algo de outro. Traveling:Atelier, ou seja, deslocamento-encontro do olhar-fazer: diferentes olhares, diferentes mundos.
Suas pesquisas já passaram muito pela análise da forma como o contexto da apresentação da obra de arte incide sobre sua concepção, sua visualidade e seus propósitos. Há alteração da noção de arte? O que se pode falar sobre os espaços expositivos tradicionais e as práticas que se inserem fora de seus limites?
As formas e contextos de apresentação não somente incidem sobre a percepção e a compreensão de um trabalho artístico, mas também podem determinar diferentes concepções de arte. Por exemplo, os Events de George Brecht são apresentados na forma de simples cartões, que podem circular em diferentes lugares e que contém textos muito sucintos, os quais nos convidam a fazer ou experimentar atividades por vezes banais ou cotidianas. Eles possuem uma concepção de arte, de processo de criação e de experiência artística muito diferente do que aquele proposto pela exposição de uma pintura de Frank Stella (e não estou fazendo aqui comparações de ordem qualitativa).
Quanto aos espaços expositivos tradicionais e as práticas fora de seus limites, haveria muito a dizer sobre isso, que extrapolaria o espaço desta entrevista. Mas, podemos observar que, ao longo do século 20, muitos artistas desenvolveram trabalhos em todo tipo de lugares e contextos. Isto mostra que os processos de criação e as experiências artísticas são múltiplos, e que possuem necessidades diante das quais os espaços expositivos podem ser inadequados ou sem relação com o proposto.
Nesse sentido, você criou a noção de "autoapresentação". O que ela significa? Qual é sua relação com a ideia de exposição? De que forma esta prática pode ser observada no cenário artístico contemporâneo?
A noção de “autoapresentação” é mais recente para mim, e me encontro ainda no estado de pensar suas implicações e possibilidades. Para falar dela, seria preciso fazer inicialmente uma distinção entre exposição e apresentação. Assim, se muitas criações artísticas são apresentadas em exposições, ocorre também que há outras que não são vistas ou não dependem destas circunstâncias: ações na rua, intervenções em áreas rurais, em lugares não artísticos ou propostas realizadas com diferentes grupos sociais. Assim, se toda exposição é uma apresentação, nem toda apresentação é uma exposição. A noção de apresentação é mais ampla do que a de exposição, e a inclui, assim como inclui uma diversidade de outros procedimentos e diferentes posições.
A exposição e a autoapresentação seriam, então, duas posições importantes no campo da arte contemporânea e indicariam limites da atuação desse campo e concepções da arte. Talvez não constituam necessariamente posições incomunicáveis entre si, talvez possam estar inter-relacionadas, mesmo que parcialmente. Na autoapresentação, as atividades artísticas não visam necessariamente a uma apresentação no sentido de exposição; por outro lado, enfatizam os processos propositivos, de relação, de envolvimento, como criação e vivência artística, mais do que a produção de objetos para exposição (para o olhar do publico, do observador). Identifico essa noção em muitas criações Fluxus, como nos Events de George Brecht citados anteriormente. Na autoapresentação encontramos uma inter-relação entre olhar e fazer e a percepção disso como ato artístico. A possibilidade do olhar seria inseparável do fazer o objeto desse olhar, ou do fazer a experiência do fazer para esse olhar. Nessas atividades e produções, se enfatiza também o uso de situações ou materiais não-pertencentes em princípio ao campo da arte, às suas práticas ou às suas tradições, o que levanta questões sobre a natureza da arte e seus limites. Em muitas das criações e propostas de Fluxus, não há diferença aparente entre um objeto ou ação cotidiana e uma obra de arte.
Penso em outros exemplos que também poderiam ser relacionados com a autoapresentação, como o Caminhando de Lygia Clark, como várias atividades de Allan Kaprow, como o jogo de xadrez para Marcel Duchamp ou algumas peças e investigações de Lee Lozano. Mais perto de nós, penso nas caminhadas e corridas de André Severo, ou em algumas atividades e visitas feitas por Didonet Thomaz.
Fotos: Lilian Maus e Túlio Pinto/Atelier Subterrânea
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