Espaço de criação

Ivo Mesquita é crítico e historiador da arte. Em 2008, foi o curador da 28ª Bienal de São Paulo. Atualmente é o curador-chefe da Pinacoteca do Estado de São Paulo, onde também coordena o Projeto Octógono de Arte Contemporânea.
Criado em 2003, o projeto recebe trabalhos de artistas brasileiros e estrangeiros especificamente criados para o espaço central da Pinacoteca. O objetivo é abrir debates sistemáticos acerca da produção e das idéias concebidas pela contemporaneidade nas artes visuais. Já participaram da iniciativa nomes como Andreas Knitz & Horst Hoheisel, Carla Zaccagnini, Cildo Meireles, José Bechara, Eliane Prolik, Guto Lacaz, Joana Vasconcelos, José Patrício, Regina Silveira, Rubens Mano e Suzanne Lafont.
Atualmente, o Octógono apresenta o sítio-específico Last Minute, do argentino Jorge Macchi. Realizada em parceria com o músico e compositor Edgardo Rudnitzky, a instalação tem a forma de um grande relógio que emite o som produzido pelo contato dos ponteiros com o solo, através de sensores de movimento. A obra fica em cartaz até 31 de maio.
Conheça mais sobre o Projeto Octógono na entrevista com Ivo Mesquita.
Qual o papel do projeto Octógono na Pinacoteca?
Quando o Marcelo Araújo assumiu a direção da Pinacoteca, no final de 2002, uma das primeiras coisas que pensou foi a criação de um espaço para projetos de trabalhos de sítio específico no Museu. Ele escolheu o Octógono, e me chamou para fazer uma proposta para esse lugar. Desde então, viemos fazendo esses projetos, quatro ou cinco vezes ao ano. Com a reforma do prédio, o Octógono virou uma espécie de espaço central, já que as pontes que foram colocadas levam a ele. Ao mesmo tempo, é um espaço que de qualquer ponto do Museu pode ser visto. Então, é uma espécie de coração, de centro do Museu. A Pinacoteca é um Museu de caráter enciclopédico, histórico, que começa a coleção no século XIX e vai até o XX e o XXI, mas que tem coisas do século XVIII, do período colonial. Portanto, a idéia de fazer dele um espaço para arte contemporânea é a de que esse projeto fosse um olhar sobre a história da arte a partir da experiência contemporânea. Nesse sentido, é afirmação desse espaço: um Museu comprometido com a arte contemporânea, com a produção de arte contemporânea, com o olhar contemporâneo para olhar o seu próprio acervo, o seu próprio papel, o seu próprio lugar.
Houve alguns artistas que trabalharam com essa relação entre acervo e arte contemporânea, como no caso da artista que escolheu uma obra da exposição do acervo e a transferiu para o espaço através de espelhos...
A idéia inicial foi encomendar trabalhos para artistas convidados e, ao mesmo tempo, refazer algumas coisas, que permitissem uma idéia de instalação, de agrupamento de trabalhos, criando uma situação. Alguns artistas trabalham especificamente a relação do espaço com o Museu, a situação do Museu, a situação da arte contemporânea. Esse trabalho a que você está se referindo é o trabalho da Carla Zacagnini de transporte de uma pintura do Almeida Jr., que está numa galeria do segundo andar, para ser vista no espaço do Octógono por um jogo de espelhos. Acho que também o trabalho do Rubens Mano, por exemplo – uma ponte que levava a uma situação de instabilidade, de precipício, de vertigem –, também tinha uma relação com o tipo e a qualidade da experiência que o Museu provê.
Qual o perfil dos artistas que te interessa convidar?
Não temos um perfil. Tem artistas cujos trabalhos acreditamos que tenha a ver e que, uma vez convidados, podem responder a esse espaço, a esse desafio. Trabalhamos com artistas que já tem uma carreira mais consolidada, na faixa, mais ou menos, dos 35 anos, que tem trabalhos mais na área de escultura, instalação, objetos, mas apresentamos alguns pintores também. Como muitos outros espaços da cidade trabalham artistas emergentes, a Pinacoteca sentiu que esta não era muito a área, e também quis marcar uma diferença, criar alguma especificidade.
O Octógono é voltado para brasileiros e estrangeiros – e temos crescido no número de estrangeiros. Conseguimos alguns acertos no sentido de financiamento do projeto, e como está mais regular, se consegue planejar mais a médio e a longo prazo. Hoje ele está praticamente escalado até 2011.
Pensando nestes nomes internacionais, em que medida vês que eles dialogam com os artistas nacionais?
Outro aspecto importante do projeto era estabelecer um programa de residências para artistas que não eram de São Paulo, com diferentes tipos de programas. Ou seja, fazer um projeto específico aqui e, ao mesmo tempo, ter uma interação maior com as escolas, com as galerias, com outros museus, com artistas locais. Mas não conseguimos recursos para isso. Temos feito algumas parcerias com agências governamentais, como a Direção Geral das Artes em Portugal, o Instituto de Cooperação Ibero-americano da Espanha, a Culture France, o Goethe Institute. Trabalhamos em colaboração com eles. Evidentemente, quem tem sido convidado são artistas desconhecidos por aqui, mas cujo tipo de trabalho pode ter ressonâncias, como a Suzanne Lafont, ou então artistas que tiveram importância histórica, como o Mario Merz. Há também artistas que já são conhecidos aqui, que estão um pouco na “ordem do dia”, como a Joana Vasconcellos e o Jorge Macchi.
Há algo de singular que diferencia a produção dos artistas daqui e dos que vêm de fora? Chegas a ver a arte brasileira com alguma característica específica?
Não consigo. Acho que existem sim certas poéticas, certas sensibilidades que eu poderia chamar de brasileiras, de latino-americanas. Mas é uma questão que, para mim, não se coloca muito para pensar a arte contemporânea. Evidentemente, os artistas são produtos do seu lugar de origem e lá existem coisas que se pode dizer que são locais, mas acho que na arte contemporânea é bastante complicado fazer esse tipo de análise. A menos que eminentemente engajados em questões sociológicas, antropológicas, talvez se pudesse identificar. Mas, de um modo geral, questões específicas talvez dêem uma certa cor local sim, um sotaque, um acento. Tem coisas que são brasileiras? Tem. Tem um certo gosto, um certo tipo de interesse por material. Mas é muito complicado tratar disso, porque você pode estar esvaziando o trabalho, desvirtuando-o, colocando-o mais em termos da aparência, de um certo tipo de estereótipo, de expectativas existentes.
Como é o público da Pinacoteca? Há uma busca por arte contemporânea ou o foco de interesse está no acervo?
Temos em torno de 500 mil visitantes ao ano, e eles vêm, em sua maioria, para ver as exposições temporárias. Entendemos que parte disso está na divulgação e mídia desses projetos. Mas acho que há um interesse bacana por arte contemporânea. O espaço do Octógono, por ser um trabalho sítio-específico, sempre envolve a apropriação do espaço, um uso com um caráter um pouco mais lúdico, que envolve muitos sentidos, e não apenas o olhar. Então, acho que ele é um atrativo, sim, no centro do Museu. Também era essa idéia. A arte contemporânea é um fenômeno hoje. É interessante como ela dá muito mais mídia do que qualquer clássico do passado – menos os impressionistas. Mas do impressionismo para cá, a arte contemporânea chegou a um status de grande arte, de espetacular, e acho que o Octógono responde a isso, tem algumas exposições espetaculares.
Por outro lado, é interessante também que, no processo de pensar uma reinstalação da coleção permanente, percebemos que ela tem um público cativo, que procura o Museu pela exposição permanente.
Como é que vocês lidam com esta questão do espetáculo versus o silêncio, em um espaço como a Pinacoteca?
Reivindicamos muito ser um espaço de contemplação, um local mais silencioso mesmo. Trabalhamos muito esse princípio. No meu entender, foi muito legal que, a partir do fenômeno do Beaubourg [Centre Pompidou, na França], os museus foram ao mundo, se transformaram, passaram a fazer parte da indústria cultural. Mas talvez agora seja o momento de eles darem um passo para trás e voltarem a ser um espaço silencioso, de contemplação, de meditação, na medida em que isso pode diferenciá-los da massa geral da indústria cultural. O problema é que o trabalho de muitos artistas hoje e, em particular, muitos dos que convidamos para cá, tem como questão principal o embate com a arquitetura do edifício e do espaço expositivo. Assim, o trabalho ganha essa espetacularidade na medida em que desafia a dimensão do espaço – 12 metros de altura e 14 metros de largura.
O que tem te interessado hoje em dia? Para onde está apontando o teu olhar?
A Pinacoteca cobre um espectro da História da Arte bastante longo. Então, eu tenho que olhar várias coisas. Tenho um olhar muito flaneur. Várias coisas me interessam e um pouco eu me deixo levar. Como curador, não posso dizer que eu tenha uma linha de artistas. O trabalho que no momento está mais tomando o meu pensamento e me interessando é a reinstalação da coleção permanente da Pinacoteca – e, evidentemente, isso é feito a partir da experiência que temos do Museu já de alguns anos. No momento, estamos trabalhando muito em torno de exposições de pintura, e os artistas com os quais estou me envolvendo tem a ver com isso, como a Beatriz Milhazes, a Leda Catunda, o Daniel Senise. Todos são artistas que me interessam, porque têm essa questão da fragmentação, mas com a colagem. Ao mesmo tempo, sinto que talvez esteja menos voando e mais interessado no aprofundamento de certas questões – pintura, pintores que são da minha geração.
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