7ª Bienal do Mercosul

Após um processo seletivo aberto, iniciado em março deste ano, a Fundação Bienal do Mercosul selecionou os curadores-gerais de sua 7ª edição: a argentina Victoria Noorthoorn e o chileno Camilo Yáñez.
Victoria Noorthoorn estudou artes na Universidade de Buenos Aires e tem mestrado em Curatorial Studies na Bard College, em Nova York. Foi coordenadora de projetos do International Program do MoMA e curadora de exposições contemporâneas no Drawing Center, ambos em Nova York. Na Argentina, foi curadora do Malba. Desde 2004 é curadora independente, tendo participado de diversos projetos na América Latina.
Camilo Yáñez é artista visual e curador. Graduado em artes pela Universidade do Chile, tem mestardo em artes pela mesma universidade. É professor da Universidade Diego Portales, da Universidade de Desenvolvimento e da UNIACC. Expôs individualmente e coletivamente no Chile e no exterior, assim como fez curadoria de diversas exposições, como Sur Scene, Château de Tours, em Tours (2007); Feedback, na Galeria Concreta do Centro Cultural Matucana 100 (2007); CityScapes - Santiago de Chile, na ARCO, em Madrid (2006), entre outras. Atualmente é diretor de criação da agência de publicidade CasaZegers, em Santiago do Chile.
Nessa entrevista, conheça a proposta dos curadores para a 7ª Bienal, que está prevista para acontecer de setembro a novembro de 2009, em Porto Alegre.
Qual a avaliação de vocês da última Bienal?
A 6ª Bienal marca um altíssimo precedente na história das Bienais do Mercosul e abre portas para as dinâmicas expansivas que estão propostas no nosso projeto da 7ª Bienal. A última Bienal estabeleceu, pelo menos, duas propostas radicais que marcaram a história do evento. Por um lado, a metáfora da Terceira Margem como modelo estruturador superou a noção de curadorias de representações nacionais, resultando em uma Bienal ampla e diversa, que abriu as portas para o diálogo tão necessário entre o plano local e o dinamismo global, permitindo, como disse Gabriel Pérez-Barreiro: “discutir uma Bienal a partir do Mercosul, mais do que do Mercosul”. Por outro lado e de maneira crucial, a 6ª Bienal revolucionou a história da atividade educativa no sistema de Bienais, tornando-se um novo modelo. O Projeto Pedagógico liderado por um curador pedagógico que é, a partir de então, considerado figura chave no processo curatorial, já está sendo incorporado por outros grandes eventos de arte no mundo e marcou de forma profunda a abertura e penetração da Bienal nas escolas e com o público em geral do Rio Grande do Sul. Nossa intenção é trabalhar a partir destas conquistas e construir uma 7ª Bienal que tome como base a 6ª Bienal para desenvolver e explorar novos horizontes e mecanismos de trabalho. Nesse e em muitos outros sentidos, nos sentimos privilegiados ante o grande antecedente, porque nos permite pensar em uma 7ª Bienal experimental, cuja concepção teria sido impossível de existir se não fosse a 6ª Bienal com todas as suas características.
Qual a resposta que vocês darão com a próxima edição? Quais são os principais objetivos que vocês pretendem atingir com a 7ª Bienal?
Nossa proposta busca focalizar na abertura e na experimentação como idéias de força da 7ª Bienal. Nisso corresponde à 6ª Bienal e a liberdade proposta pela exposição Conversas, e também a Fundação Bienal do Mercosul, que realizou um concurso aberto para a curadoria geral em caráter internacional. Mas também responde a um estado de coisas no sistema expositivo das bienais, que acreditamos que precisa ser revisitado, re-explorado a partir de novos pontos de vista. Na 7ª Bienal, buscamos incorporar, de maneira crucial, a experimentação entendida como o centro do processo criativo, para que a criação estruture cada um dos aspectos desta Bienal. É por isso que nos interessa trabalhar com uma equipe de curadores formada por artistas, sendo que cada um dos curadores escolhidos demonstra, ainda, talentos em outros campos (educativo, editorial), para nos permitir pensar novos sistemas de exposição não-convencional para a 7ª Bienal. Dessa forma, buscamos reafirmar o sentido e a pertinência da Bienal do Mercosul como uma bienal jovem, em que se respire um “ar oxigenante”, diferente e jovial, que permita múltiplas leituras, distintos roteiros de visitação, possibilidades de estudo e de abertura. Queremos surpreender com novos formatos de exposição e com obras ainda não vistas, em sua grande maioria feitas especialmente para a 7ª Bienal por artistas de todas as gerações e nos mais diversos formatos, que juntas ofereçam uma plataforma forte de visibilidade do melhor da arte contemporânea da nossa região. Nesse sentido, a Bienal busca trabalhar com o risco, o mesmo risco que está no centro da atividade criativa de cada artista ao confrontar-se com o desafio de realizar um novo trabalho. Assim, ao levar ao centro da Bienal o processo criativo com todos os seus desafios, buscamos reafirmar a função dos artistas como atores sociais e constantes produtores de um sentido crítico necessário, cujo olhar e voz devem ter mais visibilidade em nossos países.
A proposta de vocês prevê uma participação efetiva dos artistas, inclusive começando pela curadoria. Como vocês pretendem envolver os artistas e que resultados vocês esperam com esse envolvimento?
Em sintonia com a nossa proposta de colocar o pensamento criativo no centro da Bienal e considerando que o trabalho artístico e o trabalho curatorial envolvem critérios metodológicos comuns de edição e seleção, pesquisa, classificação, definição e nominação, convidamos uma equipe de artistas a ocupar certos postos curatoriais importantes: a curadoria de exposições, a curadoria pedagógica e o que estamos chamando de curadoria editorial. Estas três áreas atuarão em sintonia com a curadoria geral, cuja proposta está radicada em propiciar uma maior fluidez entre as três áreas de modo que elas se alimentem mutuamente e que juntas permitam a construção de uma 7ª Bienal com base no diálogo e na incorporação de múltiplos olhares.
Estas três áreas prevêem trabalhar organicamente, de modo a provocar no espectador diferentes experiências sobre a mesma exposição e na medida em que a exposição se desenvolve, além de oferecer as ferramentas para que o espectador interprete a 7ª Bienal a partir de vários pontos de vista, sejam eles propostos pela Bienal ou pelo próprio espectador.
A abertura para os artistas terá como um de seus pontos uma convocatória aberta à participação em uma das exposições que está sendo planejada. E, além da participação na equipe curatorial da Bienal e nas exposições, a participação dos artistas estará contemplada em diversos níveis, desde apresentações ao público sobre seus trabalhos ou temas específicos da Bienal, desenvolvimento de peças gráficas e textos que permitam compartilhar instâncias de seus processos criativos com o público. As especificidades surgirão, certamente, durante o processo de trabalho da 7ª Bienal.
Quais são os principais eixos temáticos que vocês pretendem abordar na Bienal?
A curadoria geral da 7ª Bienal do Mercosul encontrará seu fundamento conceitual recuperando a confiança na energia criativa de artistas que – mediante a sinalização, a interrupção, a colocação em tensão e outras estratégias – param para refletir sobre qual é seu papel na trama do real, propondo alterações no corpo social e no contexto material para permitir a abertura de novas perspectivas críticas. Nos interessa a pausa ativa como plataforma subversiva de reflexão e como forma latente de potencialidade. O que acontece um segundo antes? O que acontece um segundo depois? Que mudanças se produziram nesse compasso de tempo proposto pelo artista?
Nessa Bienal nos interessa focar naquelas obras ou gestos que, aparentemente pausados e em silêncio, sinalizam,documentam e exibem o funcionamento do coração do Real – para torná-lo visível. Obras que separam as camadas da realidade que, imbuídas de farsa, decepção e simulação, obstruem e confundem a visão de um mundo em conflito, caracterizado pelo abuso de poder governamental e macroeconômico, pela filtragem da informação, as contradições entre o cotidiano real e o cotidiano virtual e as crises que envolvem um homem desorientado, desregrado e silenciado. Nos interessam as sinalizações mínimas, pontuais, cujas conseqüências podem ser incomensuráveis.
Pensamos na pausa em diversas perspectivas. O artista se infiltra no sistema e propõe novas opções a estruturas de pensamento ou funcionamento existentes no corpo social: projetos econômicos alternativos, gestos de união social, fundação de sociedades experimentais, projetos pedagógicos expansivos. Nessa pausa, o artista analisa, altera, destrava ou desenlaça progressivamente a partir de uma pequena escala as estruturas existentes e abre novas redes de realidades possíveis, oferecendo lugares de respiro e de expansão de pensamento.
Falando especificamente, as exposições estão sendo desenvolvidas, mas já podemos adiantar que cada uma delas articula uma perspectiva ou modo de funcionamento particular sobre os conceitos gerais aqui propostos – de pausa e ação efetiva no e sobre o real.
O projeto educativo sempre foi um dos carros-chefe da Bienal. Como vocês pretendem trabalhar nesse sentido?
Nos sentimos privilegiados de contar com o forte antecedente pedagógico da 6ª Bienal. Queremos continuar com muitos dos programas inaugurados pela 6ª Bienal, incorporar outros e explorar os horizontes e as possibilidades que se abrem ao trazer o pensamento artístico e criativo ao centro de funcionamento da 7ª Bienal.
Especificamente, a curadoria pedagógica da 7ª Bienal propõe pensar a educação como um espaço para o desenvolvimento de micropolíticas criativas. Se trabalhará com uma equipe de assessores, um pequeno grupo de artistas da América Latina e do mundo, que colocam em ação micropolíticas no campo da arte e da docência – artistas que realizam um trabalho docente de excelência, de caráter experimental e não formal -, que fornecerão ferramentas criativas para explorar novas aproximações com o ensino sobre a arte e sobre a experiência da arte. Isto é, a estrutura e a maioria dos programas pedagógicos da 6ª Bienal serão mantidas, mas serão flexibilizadas ao incorporar os pontos de vista de diversos artistas-professores, para conformar uma bienal plural que incite por sua vez uma pluralidade possível de olhares e experiências por parte do espectador geral, do professor e do público escolar. Esta mesma pluralidade de olhares será proposta pela curadoria editorial, que deve estar em sintonia com a curadoria pedagógica e que esperamos ser mais uma ferramenta para difundir massivamente as idéias, projetos e propostas para esta 7ª Bienal, com publicações experimentais e de baixo custo, pensadas para atuar tanto massiva como criativamente.
Já há uma previsão de como a mostra estará organizada?
Sim, já estamos trabalhando nas exposições em relação aos diversos espaços em Porto Alegre e temos muitas idéias claras, como a presença que terá o Projeto Pedagógico em cada espaço expositivo e sua maior mobilidade. Mas, nesse momento estamos em pleno processo de trabalho e seria preferível anunciarmos as diversas mostras, quando estiverem em um estado mais avançado de seu desenvolvimento.
O programa de artista residente foi inaugurado na última Bienal. Vocês pretendem manter esse projeto?
Acreditamos que é muito importante promover uma relação estreita entre os artistas visitantes e a cidade de Porto Alegre e estamos trabalhando nisso. Por exemplo, uma das exposições terá como foco principal o desenvolvimento de projetos de arte pública, inseridos na cidade, em diálogo com sua arquitetura, suas tradições e sua população. Dentro dessa linha, acreditamos que o próprio processo criativo dos artistas convidados vá determinando a necessidade de articular um programa de residências, mas preferimos que as características deste programa surjam no processo de trabalho e da necessidade das obras, assim como a própria necessidade de interação com Porto Alegre e com o estado do Rio Grande do Sul.
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