07.05.2010
Entender e não entender

Bom humor, doses moderadas de indignação, elegância formal, tudo isso a gente encontra em vários lugares, mesmo porque a decoração de interiores virou uma espécie de ciência e descobriu que tudo isso precisa, de alguma forma, compor um bom ambiente, seja ele a casa do sujeito ou o escritório da firma. Não será a busca desses elementos, portanto, que fará alguém sair de casa para conhecer a obra de algum artista, ainda que o artista em questão esteja expondo na Fundação Iberê Camargo, espaço que, como tudo mundo sabe ou precisa saber, vale por si, pela inteligência, pela invenção, pelo milagre da criação de espaços e, not least, pela geografia, ali na beirinha do Guaíba (o sólido bloco arquitetônico não só não fere a paisagem como a enriquece, eis o feito gentil do arquiteto Siza).
Mas ocorre que na Iberê estão expostos alguns trabalhos de gente que merece ser vista e apreciada para além daquelas ideias vagas de prazer estético. Estão ali León Ferrari e Mira Schendel, num conjunto que foi batizado de Alfabeto enfurecido. Bom nome, isca para letrados e leitores em geral. Fui lá eu também.
Não sendo um especialista em artes visuais, e pelo contrário, sabendo que sou um mero curioso, sempre que vou a uma exposição procuro dar férias para os critérios históricos e estéticos que compõem meu modo consciente de ver o mundo. Procuro mesmo, quero dizer, combato a sua chegada ao pensamento, peço que eles me deixem experimentar, mesmo que por pouco tempo, a graça de não saber, de não entender. Exercício difícil ou impossível quando se presencia um autor europeu consagrado, digamos um Velásquez, um Turner, dois que visitei porque queria ver ao vivo como eram esses meus admirados de retrato; exercício talvez possível quando se trata de gente contemporânea, ou quase. Exercício que tentei fazer na exposição enfurecida.
Nem tão enfurecida, para começo de conversa. Quem vem da literatura, ao pensar em alfabeto enfurecido evoca algum daqueles escritores que puseram sua força no combate ao academicismo e ao conformismo do final do século 19, começo do século 20, Joyce, Kafka, Breton, Oswald de Andrade, sei lá. Aquilo foi uma fúria alfabética, de vez em quando ainda mostrando força, muitas vezes repetida como mero gesto, como um estilo (não sei quem teve primeiro a ideia, mas em algum momento Ricardo Piglia escreveu que vanguarda, em nosso tempo, é apenas mais um estilo, entre tantos, e me parece perfeita a qualificação).
Mas sim enfurecida. Mais em León Ferrari do que em Mira Schendel, me parece. Talvez por temperamento e educação, Mira, mesmo quando indignada, é mais controlada, mais cerebral, mais germânica; talvez pelos mesmos motivos culturais, León é mais feroz, leonino digamos, mistura de italiano com espanhol talvez, e por isso suas indignações e fúrias são mais viscerais — e nem estou pensando diretamente naquele quadro em que ele pôs cocô de galinha sobre uma reprodução de quadro celestial renascentista.
Enquanto os trabalhos de Mira Schendel tendem ao geométrico, com letras em forma industrial desarranjadas na superfície (lembrando diretamente o Concretismo paulista, com sua fúria retórica que era também, ambiguamente, uma celebração da lógica industrial), tudo com alguma marca de impessoalidade e distância cerebralmente crítica, os trabalhos de León Ferrari trazem sempre a marca de sua mão, do corpo humano, do suor, da indignação muito menos mediada. Há uma ótima série de grandes papéis caligrafados, com textos mesmo, muitos deles indignados contra algum poder (Igreja e Militarismo norte-americano talvez sejam os alvos prediletos); e nessa série, em experiências de aumentar e diminuir o tamanho da letra ao compor o conjunto, está o autor visivelmente soltando e contraindo a mão que escreve, num resultado que se poderia dizer próximo da respiração indignada.
Há também impressionantes móbiles e esculturas, feitos de material que chama a atenção por sua condição de coisa rejeitada (galhos de árvore, filetes de aço) ou coisa invisível (ossos humanos), como igualmente imanta a atenção do passante pelo volume construído, resultando em grandes paralelepípedos construídos de vazio, de ar, dentro dos quais o artista arranjou os ditos materiais, atados uns aos outros em arranjo ao mesmo tempo precário e estável — mais ou menos como a vida de qualquer um de nós, que ali estamos a olhar.
Um desses volumes se chama Atado con alambre, certamente uma alusão a um dito fanfarrão argentino, “Lo atamo’ con alambre”, que em português corrente seria algo como “Deixa comigo que eu dou um jeito” misturado com “Eu sou foda”; e o legal é o que o atado do argentino Ferrari é feito literalmente com arame (e os ossos são de material sintético) mas para inventar um arranjo de coisa que é bem arranjada na natureza, a nossa ossamenta, quer dizer, para inventar o ininventável, com perdão pelo neologismo, ou o inútil.
Em mais de um momento a exposição lembra, ao visitante brasileiro ao menos, a obra de Arthur Bispo do Rosário, aquele esquizofrênico internado na colônia Juliano Moreira que a doutora Nise da Silveira percebeu tratar-se de um inventor de gênio, com suas coleções ensandecidas de objetos triviais e, mais ainda, com sua escrita destrambelhada, apocalíptica, ao mesmo tempo doce e com um ar caseiro indesmentível.
Bem assim fortemente vai aparecer, aqui e ali, na obra de Ferrari mais do que na de Schendel, um aspecto meio enlouquecido, de reunião inusitada de letras e materiais, mas com a significativa ausência de cores, em contraste ao colorido de Bispo: na exposição que está ali à beira-rio (é rio sim, não me vem com essa), quase tudo é preto e branco, e mesmo as escassas cores, quando aparecem, é para marcar exceção e fazer lembrar que se trata de obra de intenção crítica, que não quer celebrar mas cutucar a percepção e fazer pensar, que não quer iluminar os lados felizes da experiência mas aprisionar a percepção no sempre árido preto e branco.
Por todos os lados, em todas as partes, de alto a baixo (que é como se vê exposição na comovente arquitetura do prédio da Fundação), O alfabeto enfurecido vale a pena, como tentei dizer aqui: o espectador ganha em ver, em entender e em não entender, alternadamente, sucessivamente.
Luís Augusto Fischer
Escritor, cronista e professor de literatura brasileira na UFRGS.
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