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  Pobre do homem, talvez, mas feliz o artista dilacerado pelo desejo!
Charles Baudelaire, Le Spleen de Paris


Iberê Camargo

Como poucas na arte brasileira, e na arte mundial, a obra de Iberê Camargo associou a grandiosidade histórica da pintura à problemática circunstância moderna. E também à circunstância pessoal, de homem do sul brasileiro, que nasce inculto e provinciano, e se faz pintor e homem do mundo.

Cedo a urgência da pintura se revela, com uma intensidade passional que vai perdurar até os últimos quadros. A este autêntico expressionista, a arte impunha uma exigência dramática que dominava a existência. Rara é a integridade do artista, nunca consentindo em qualquer solução fácil ou improvisada. Cedo também, a necessidade do domínio da pintura se impôs como um desafio para a vida e que devia ser cumprido sem recuo ou vacilações.

Formou-se pintor na adversidade. A pintura envolveu-o por inteiro do início ao fim e o domínio do saber pictórico vai ser perseguida sem tréguas, através de um aprendizado sério, metódico. Para Iberê não há descontinuidade entre o pintor moderno e os grandes mestres da tradição, daí o indispensável conhecimento profundo dos materiais e das técnicas, que perseguiu através da vida.

Uma avidez inicial pela pintura é então absorvida por um longo e auto-imposto processo formativo disciplinado. A sensibilidade bárbara do início entra em latência, frente ao compromisso da aquisição superior do ofício. Quando ingressa na vida cosmopolita, urbana, paradoxalmente, é a experiência inicial que impõe a marca moderna da sua pintura. E a individualidade solitária e heróica desta vocação se realiza no recolhimento integral do ateliê. Tal envolvimento resultou numa obra de raríssimos desníveis, toda ela realizada com o mesmo grau de intensidade.

A obra de Iberê, atravessa sem vacilações nos seus propósitos, mas não sem enormes dificuldades, o complexo percurso histórico da pintura da segunda metade do século 20. A ampla variedade de influências que experimentou, de Guignard à Escola de Paris e Giorgio de Chirico, delineia este singular tardo-moderno que atingiu o limiar da pós-modernidade. Mas acima de tudo, foi o seu convicto discernimento artístico que prevaleceu sobre todas as influências e caracterizou a sua independência como pintor.

A partir dos anos 60 o carretel, brinquedo da infância do pintor, surge como uma figura psicodinâmica que exala toda a densidade do ambiente atormentado do ateliê do qual Iberê se tornará um grande especialista moderno. Cada vez mais irá acentuar os componentes que caracterizam o espírito pictórico da época: a ação física intensa, violenta até, distribuída através de toda a superfície; a enfática presença cromática, o gosto pela materialidade própria da tinta; os aspectos corpóreos, físicos, sensoriais da execução.

A inquietude existencial do homem Iberê vai transformar a sua própria ação diante da tela no drama cotidiano inútil e solitário da sua convicção de pintor, da sua inabalada crença na pintura. Sua abstração pictórica é uma das manifestações mais expressivas de uma condição espiritual determinante do homem do século XX: a angústia da revolta.

Na década de 80 uma inesperada e surpreendente atualidade marca pintura de Iberê. Era até então o grande pintor moderno, quando uma nova circunstância cultural, que retoma e requalifica o ato de pintar e a pintura, vai colocá-lo num outro contexto de referências - o contexto pós-moderno. A "figuração" retorna problemática e curto-circuita o plano pictórico. A intromissão intempestiva do artista como figura vai identificar todo um conjunto de quadros destes anos, traçando uma espécie de biografia trágica. O confronto se renova mais uma vez: o do pintor com a pintura. E mais uma vez se coloca a auto-exigência que a condição de expressionista sempre exigiu.

Ao final da vida de Iberê Camargo, nos quadros dos anos 90, revela-se uma visão atual - plenamente século XXI -, majestosa e melancólica que ainda procura refletir sobre o sentido último da condição humana e deixa, assim, uma interrogação não respondida: o destino se cumpriu?

Paulo Venancio Filho, crítico de arte e professor da UFRJ
 
 
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