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Um mundo a perder de vista – Guignard
A exposição “Um mundo a perder de vista – Guignard” reúne cerca de 40 obras, entre pinturas e desenhos, desde 1929 até 1961, pertencentes a coleções particulares e públicas do Brasil e do exterior, a fim de constituir uma seleção que proporcione um exame abrangente da produção do artista. O conjunto privilegia paisagens e noites de São João realizadas nos últimos dez anos dessa trajetória, na tentativa de enfatizar o processo de dissolução parcial de espaços e figuras representados com freqüência no trabalho do pintor. A mostra pretende acompanhar as graduais rarefação e liquefação de matéria na conformação de vistas obtidas em geral do alto, à distância e transfiguradas em superfícies rasas de pequenas dimensões. Como elementos estruturais recorrentes, inclusive no fundo de retratos e naturezas-mortas, esses ambientes vastos e afastados indicam a tomada de um posto de onde olhar, que parece permitir ao artista desembaraçar-se da objetividade de situações imediatas para assumir um recuo de tom reflexivo, feito de vazios e devaneios, a partir do qual Guignard elabora uma visualidade singular no modernismo brasileiro.
Embora reconhecida entre as mais importantes da arte moderna no Brasil, a obra de Alberto da Veiga Guignard (1896-1962) tem sido interpretada, muitas vezes, sob os registros ambíguos de uma pintura nacionalista e fantástica, ingênua e erudita, lírica e trágica. Adjetivos que, se a favorecem por inviabilizar a classificação unívoca do trabalho, prejudicam-na à medida que tendem a subestimar a complexa integridade formal e poética conquistada num desenvolvimento lento e interno, apesar das oscilações de qualidade. Em comparação com o anseio programático no primeiro quartel do século XX de forjar uma arte brasileira e atual – comprometida com a representação cultural do país e em dia com soluções formais adaptadas de “estilos” modernos –, Guignard não recorre à grandiloqüência no tratamento de símbolos pátrios e se situa à margem de uma perspectiva teleológica da arte. Prevalece, aqui, uma percepção intuitiva que põe em atrito um grafismo de veio decorativo, às vezes pueril, e um exigente conhecimento técnico tributário da tradição pictórica ocidental.
Daí o objetivo desta exposição de verificar como os procedimentos e as associações que se desenlaçam no curso dessa produção acabam por transformar o que seria paroquial num assombro: seja nas decisões que orientam a busca do artista por uma notação autoral sobre a tipologia pré-moderna dos gêneros da pintura; seja nas sugestões de abandono e desolação emanadas de uma figuração que bafeja intimidade; seja na flutuação de balões de festa junina e de igrejas coloniais, acima da lua e no meio das trevas, pela vastidão de um território sem nome nem hora. A falta de um chão qualquer, de um horizonte que garanta a referência básica da estabilidade do homem, reforça a idéia de que não se trata de opor ou conciliar, simplesmente, um suposto universal – esse lugar-nenhum onde edificações barrocas se assemelham a castelos medievais – ao que seria, por contraste, o idílico e o pitoresco – identificado por balões, palmeiras, a bandeira nacional etc.
O insólito dessas combinações reside, sim, na ordem difusa das obras e na dinâmica que contraria a fixidez do olhar, substituída por uma simultaneidade imprevista dos ângulos de visão. Na espacialização de um universo constituído de luz, neblina e de uma solidez volúvel, para dizer o mínimo, é a distribuição de elementos frágeis e modestos que proporciona algum arranjo possível às manchas de cor. Por nem levar em conta o aniquilamento dos vestígios de certo empirismo renitente, a imaginação de Guignard se compraz em destituir os seus elementos de materialidade, até torná-los transparentes e de limites físicos incertos, engastados em planos de pouca profundidade, com tinta diluída e “magra”, como num exercício de dúvida sobre a consistência das coisas. O que perdem na intensidade e na expansão potenciais, essas figuras ganham em porosidade, restando-lhes permanecer em suspensão, envoltas por uma película turva que confere aspecto fantasmagórico à região ao mesmo tempo pátria e desterro, tão empática e emotiva quanto hesitante e fugidia, talvez em sedimentação demorada, talvez na iminência de desaparecer.
José Augusto Ribeiro
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