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O Guia do Professor, concebido pela pedagoga Maria Helena Wagner Rossi, foi elaborado para orientar os professores a trabalharem com a obra de Iberê Camargo, propondo possíveis encaminhamentos, tendo como base o respeito aos diferentes contextos e momentos de compreensão estética de seus alunos.

Este Guia não visa propor uma série de passos a serem seguidos. Ele confia ao professor a decisão dos procedimentos adequados aos seus contextos, conforme a concepção de leitura e apreciação estética que o embasa. Para entender mais sobre o assunto, leia algumas reflexões sobre "leitura de imagens".

Para inaugurar o Guia do Professor foram selecionadas duas obras: Riacho e Auto-retrato. Suas reproduções podem ser encontradas no Poster Book de Iberê Camargo. Conforme a familiaridade dos seus alunos com atividades de leitura e apreciação de obras de arte, e conforme o seu nível de escolarização, o enfoque pode ser diferenciado. Para tanto, são sugeridas duas propostas:

PRIMEIRA PROPOSTA

A primeira proposta é indicada para crianças e pré-adolescentes com certa familiaridade com arte, mas também para jovens com pouca ou nenhuma familiaridade com arte ou com leitura de imagens. O professor pode avaliar a adequação desta proposta para os seus alunos, prestando atenção às respostas à suas questões iniciais.

SEGUNDA PROPOSTA

A segunda proposta é indicada para adolescentes e jovens com familiaridade com arte.



Auto-retrato,
óleo s/ tela, 35 X 25 cm, 1984.
Coleção Maria Camargo,
Fundação Iberê Camargo


Riacho, óleo s/ tela, 30 X 40 cm, 1942.
Coleção Alice Soares de Souza
ALGUMAS REFLEXÕES SOBRE "LEITURA DE IMAGENS"

O tema leitura de imagens tem chamado a atenção dos professores de arte, desde que as novas abordagens trouxeram a imagem da arte para a sala de aula, depois de muitas décadas da hegemonia da livre-expressão. No entanto, nem sempre esse assunto tem sido discutido de maneira a considerar o sujeito da leitura: o aluno. Pois é esta a proposta que queremos fazer ao professor de arte, que quer propiciar uma verdadeira (e contemporânea) educação estética ao seu aluno. Quaisquer que sejam os seus objetivos pedagógicos, as suas propostas deverão levar em consideração as condições de construção de conhecimento do aluno no domínio da leitura estética.

Parafraseando Paulo Freire (1983, p. 22), podemos dizer que "a leitura do mundo precede sempre a leitura da imagem/arte e a leitura desta implica a continuidade da leitura daquele." Em outras palavras, não há leitura de imagens que não seja influenciada pela experiência de vida do leitor. Ao mesmo tempo, a leitura estética vai ampliar a leitura do mundo.
Quando os alunos pensam que estão apenas descrevendo o que está objetivamente à sua frente, estão, na verdade, interpretando. Suas falas são interpretações do que vêem. Tais interpretações são geradas nos contextos por eles vivenciados, pois nada pode ser interpretado sem uma conexão com o mundo com o qual se vive. Por isso não podemos impor uma interpretação e uma compreensão da arte de acordo com o que pensamos ser adequado; de acordo com a nossa vivência e experiência estética. A compreensão estética é, então, uma construção social, pois as idéias articuladas durante a leitura são engendradas nos (e pelos) contextos culturais e seus discursos.

Para que a leitura estética possa ser um elemento fundamental, essencial, no processo educacional, e que tenha significado para a vida dos alunos, temos que ampliar nossas concepções sobre esse assunto.

Freqüentemente, estética em sala de aula tem se reduzido a um roteiro pré-estabelecido de perguntas, que não respeitam a construção do conhecimento estético. Em outras palavras, são perguntas que não são dos alunos. São perguntas que eles não fazem à imagem.

Ler uma imagem é fazer-lhe, implicitamente, perguntas. Compreendê-la é ter as perguntas respondidas por ela. Fizemos perguntas, sempre, mesmo que inconscientemente. Fizemos perguntas para significar o mundo, pois o ser humano tem necessidade de interpretar tudo, sempre, desde a mais tenra idade.

Para mudar essa realidade temos que, antes de tudo, compreender como os alunos pensam sobre arte. Temos que responder a algumas questões, como: O que os alunos vêem em uma imagem? O que enfatizam quando analisam? Como interpretam? Que critérios usam para julgar? Por que alunos de diferentes níveis e contextos lêem de formas diferenciadas? Quais são os pressupostos que os alunos trazem? Como é, realmente, a leitura do aluno? Pode-se impor uma leitura?

As abordagens formalistas que reduzem a leitura estética à percepção dos elementos e princípios da composição, que se interessam apenas pela organização e pelo estilo da obra, têm se mostrado ineficientes para proporcionar a alfabetização estética. É importante saber que ensinar um "vocabulário estético" não é o mesmo que favorecer a construção de idéias estéticas. Os alunos constróem, gradualmente, uma teoria de arte, que usam para explicitar a sua compreensão. Essa "teoria" são as idéias que os alunos adquirem durante suas experiências cotidianas, em seus encontros com trabalhos de arte. Às vezes, tais idéias podem parecer erradas, ou em desacordo com o que pensamos que eles devem saber. No entanto é daí que temos que partir, para ampliar suas idéias estéticas, que, no início são realmente limitadas.

Enfim, a concepção de leitura estético-visual que embasa as propostas do Guia do professor é uma concepção que respeita os modos de construção do conhecimento estético dos alunos. É uma concepção que pretende ultrapassar os (ainda usados) enfoques formalistas, muito usados durante a crítica de arte no Modernismo (durante a primeira metade do século XX), onde a prioridade era a obra e não o leitor ou o contexto", segundo palavras de Ana Mae Barbosa. "Para Roger Fry, um dos primeiros formalistas modernos vinculados às artes visuais, a análise de uma obra deve priorizar os elementos do design: equilíbrio, ordem, ritmo, padrão, composição" (1998, p. 47).

Michael Parsons também faz uma crítica aos estetas modernistas dizendo que, ao olharem para o contexto de origem da obra, e não ao contexto da recepção, eles mantêm "uma abordagem relativamente conservadora na cena contemporânea", mas que "uma orientação quanto à importância do contexto e da interpretação é a base de muitos pontos de vista contemporâneos" (1992, p. 6). Nossa abordagem é coincidente com esta, ultrapassando a ênfase na percepção das qualidades visuais para centrar-se nos aspectos interpretativos da arte e das imagens em geral. Os elementos formais não serão negligenciados quando sua abordagem for oportuna para a interpretação das obras pelos alunos.

Com essa concepção de leitura estética, o Guia do professor pretende disponibilizar aos interessados, algumas propostas de leitura de obras de Iberê Camargo, considerando os dois fatores do desenvolvimento estético: o estético e o psicológico. Em outras palavras, as propostas consideram o nível de complexidade do conteúdo estético, e as condições cognitivas dos alunos, sujeitos das leituras, nos vários momentos e contextos do processo de escolarização.

Acreditamos que ao respeitar as condições e a natureza da construção do conhecimento estético, a leitura possa ser aquele elemento fundamental e, principalmente, significativo para a vida dos alunos, e não apenas mais uma mera atividade escolar obrigatória. É isto que os alunos esperam, o que pode ser visto nas palavras de Janaína, aluna da 8ª série: "Quando vemos uma pintura, temos que sentir que alguma coisa se passou em nós; alguma coisa para a gente usar no dia a dia".

Esta aluna nos ensina que quando uma imagem é significativamente interpretada pelo aluno, ela o afeta no seu íntimo, ou então não houve leitura.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BARBOSA, A. M. Tópicos utópicos. Belo Horizonte: C/Arte, 1998.
FREIRE, P. A importância do ato de ler. São Paulo: Cortez, 1983.
PARSONS, M. J. Compreender a arte: uma abordagem à experiência estética do ponto de vista do desenvolvimento cognitivo. Lisboa: Presença, 1992.
 
 
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