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CARTÃO DE NATAL
"Um muro se ergue
à minha frente, na curva do caminho..." Pierre
Teilhard de Chardin
Sexta-feira, 5 de dezembro de 1980. (01)Tenho o hábito
arraigado de andar pelas mesmas ruas, de freqüentar
os mesmos lugares, como se deles não pudesse me
afastar. Mas, nesta sexta-feira do mês natalino,
decidi, para abreviar o caminho, percorrer uma rua pela
qual não costumava transitar.- Hoje faremos um
caminho diferente - disse à minha auxiliar.
Não imaginava que, ao mudar o rumo de meus passos,
mudaria também o de minha vida. Vou ao encontro
do destino, de coração alegre, conduzido
pelas mãos inocentes de crianças pobres
que pintam cartões de Natal para vender.
Parece que o instante está prefixado no tempo,
"na curva do caminho" de que fala Chardin.
Sigo despreocupado, pensando nos amigos que à noite
viriam jantar conosco. Pretendia regressar a casa mais
cedo para recebê-los. Caminho, pois, com meus pensamentos,
surdo ao tumulto permanente da rua. Levo a paz no coração,
o silêncio na alma.
O céu está claro, luminoso, azul. Nenhum
sinal de borrasca, nenhuma nuvem no céu que esconda
o sol e ensombreça a terra. Na rua, nenhum prenúncio
do que se avizinha célere, do que está para
acontecer, como no cenário das tragédias
que vaticinam o drama. |
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Fantasmagoria V,
óleo s/ tela, 213 x 180 cm, 1987.
Coleção Galeria Nara Roesler |
Meu drama
não foi escrito pela mão do homem.
A violência que se desencadeou alhures aproxima-se
sem que eu a veja. Ela se oculta atrás dos muros,
como fazem os salteadores. Caminho com meus pensamentos,
com meus sonhos.
São três horas da tarde. Eis que, de imprevisto,
saído não sei de onde, como se rompesse
uma barreira, desaba sobre mim um formidável vendaval
de força física, um impacto que me aterra,
que me arraste no vórtice de uma fúria,
que me arremessa ao chão, que medilacera e me enche
os olhos de espanto e medo.
Ergo-me. Acossado, recuo. Hesito, vacilo, sem nada
compreender. Ando com passos titubeantes. Ressoam dois
tiros no ar morno daquela tarde que se imobiliza para
sempre na minha memória.
O homem, atingido, estremece, ergue-se no ar como se
impulsionado por uma onda invisível. Um urro
inumano reboa e antecede a sua queda.
Agora o homem seminu procura erguer-se. Com esforço,
põe-se de joelhos, inclina-se para a frente apoiando-se
nos braços. As mãos tateiam o asfalto.A
cabeça lhe pende. A respiração
é curta, difícil, ofegante. Seus esforços
são vãos. Fogem-lhe as forças.
Do amplo dorso brotam, sem parar, sutis filetes de sangue
- uma vertente, a fonte da vida que se esvai. Eu permaneço
petrificado, mudo, como se uma catapulta me houvesse
projetado para fora do tempo.
Deixo-me levar. A provação chegou. Agora
o cansaço, uma lassidão me invade.
Doravante, sou arrastado no caudal dos acontecimentos,
na voragem do noticiário, no frio formalismo
da Justiça. Provo, então, o amor e o ódio,
a compreensão e a incompreensão, o insulto,
a infâmia. A verdade e a mentira da notícia
misturam-se na versão que adultera o fato.
Presto depoimento na delegacia do bairro. As testemunhas
se omitem, mentem pelo silêncio. A imprensa, cruel
e insaciável. Alguns cronistas vomitam um ódio
até então insuspeitado.
Perseguido por repórteres, sou conduzido ao
Ponto Zero, um velho casarão em Benfica. À
entrada do túnel, o carro que me conduz sofre
uma pane no motor. O advogado que me assiste põe-se
a rezar o terço, coisa inusitada para mim.
Finalmente, chego ao velho casarão. Para alcançar
a cela, que ocupa um amplo espaço no terceiro
andar, galga-se uma escadaria de pedra. A cela compõe-se
de várias dependências, separadas do vasto
salão de entrada, onde permanece a guarda, por
uma grade de ferro que toca o teto. Nesse recinto, ocupado
por quatro ou cinco presos, arma-se um leito, que me
é destinado.
Minha mulher e meus amigos que me acompanharam retiram-se
com palavras de carinho. Agora estou só entre
estranhos. Exausto, deito-me de costas e cerro os olhos
para evitar a luz da lâmpada, que permanece acesa,
como uma lâmpada votiva, em vigília. O
sono não vem.
A noite é longa. Eu a atravesso insone, mergulhado
na minha escuridão interior.
Tenho fixa na retina uma cena que repete sem cessar,
que passa e repassa interminavelmente. Uma imagem obsessiva,
cruel, que reverte a marcha do tempo: um corpo enorme
que se ergue e se abate com o vagar da árvore
que tomba. Mostra um dorso flagelado, mãos enormes
que se aproximam, ameaçam, suplicam. Essa cena
se repete ao infinito, incrustrada, indelével,
no meu cérebro.
O dia chega devagar. A luz, a princípio tênue,
penetra sorrateira e ilumina as paredes sujas do cárcere,
nelas projetando a sombra das grades que guarnecem as
janelas, no alto do muro. Os desconhecidos companheiros
ainda dormem em seus beliches. O calor é intenso.
Recende um fétido cheiro de lixo acumulado de
vários dias e um insuportável fedor de
latrina.
Experimento uma profunda solidão. Fora, o mundo
deixou de existir.
Após permanecer dois dias no Ponto Zero, sou
transferido para o Regimento Marechal Caetano de Farias
(02), antiga fortaleza hoje transformada em quartel.
Conduzem-me para a cela X-2, onde estiveram presos,
antes, alguns políticos notórios. Encontro
aí dois reclusos - um jovem e um preto de setenta
e um anos, que se entretém em dar migalhas de
pão aos pombos. Às vezes rompe o silêncio,
murmurando frases místicas, em que aparece o
nome do Nosso Senhor Jesus Cristo.
A cela é espaçosa, permanentemente iluminada
pelo sol e convenientemente mobiliada com mesas, cadeiras,
geladeira e televisão.
Sobre uma bancada, junto da pia, um fogareiro elétrico
onde se esquenta o café. Nas prateleiras de madeira,
xícaras, pratos, utensílios de cozinha.
Percebo, ao chegar, que a televisão está
ligada em alto volume.
Para atender - soube-o depois - a um pedido do sentinela,
que, distante, queria ouvir os programas.
O pátio que se estende em frente à cela
é limitado pelas quatro fachadas internas do
prédio, formando um espaçoso retângulo,
que serve para exercícios dos soldados. Pela
manhã, os pelotões marcham entoando hinos,
de cujas letras posso apenas distinguir : "Essa
é uma corrida mixuruca".
Quando cheguei, achava-se de visita ao quartel um jovem
capitão da PM que, de imediato, com avidez, quis
saber como tudo tinha acontecido. Tentei relatar o ocorrido,
sem contudo conseguir: ele sempre me interrompia com
novas perguntas, mostrando-se surpreso com o tipo da
arma, que assumia, a seus olhos, desmesurada importância.
Cansado de recomeçar a narrativa que apenas iniciara,
disse-lhe de chofre:
- Cada um tem seu modo peculiar de narrar. Certamente,
capitão, o senhor já leu alguns livros
e sabe, portanto, que escritores há que escrevem
longos prólogos, outros são menos prolixos
e outros ainda mais breves. Outros apenas fazem uma
dedicatória à mãe.
(01) Na tarde de 5 de dezembro de 1980, por volta das
três horas da tarde, Iberê Camargo, acompanhado
de sua secretária, Sueli Santos da Silva, 27,
deixa seu atelier na Rua das Palmeiras, pega a Rua Sorocaba,
quase na esquina da Voluntários da Pátria,
em Botafogo, à procura de cartões de natal.
Pouco tempo depois surge o engenheiro projetista do
setor de mineração e metalurgia da IESA,
Sérgio Alexandre Esteves Areal, 32, que trajando
apenas um short, interpela Iberê : "O que
você está olhando?" Ao que este respondeu:
"Não estou olhando nada". Depois de
empurrar Sueli, Sérgio avança contra Iberê
e o derruba no chão. Este, recomposto, pega a
arma na capanga e ameaça: "Não vem
que eu atiro." O engenheiro investe novamente contra
o pintor que dispara duas vezes um Smith-Wesson 357,
do tipo Magnum, calibre 38. O pintor possuía
porte de arma. Defendido pelos advogados Evandro e Técio
Lins e Silva, foi absolvido liminarmente em sentença
confirmada pelo Tribunal de Justiça, pois prevaleceu
a tese de que agira em legítima defesa.
(02) Em maio de 1981, Iberê expõe na Galeria
Acervo, Rio de Janeiro, 28 trabalhos feitos durante o
mês em que esteve preso no Regimento Marechal Caetano
de Farias, 21 desenhos registram cenas do pátio
interno da prisão. Dois deles intitulados "Tranca
Rua", apelido de um prisioneiro, condenado por ter
assassinado mendigos. Um óleo, "Hup",
assim batizado por captar os gritos dos soldados em exercício
militar. |
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