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Ciclistas,
óleo s/ tela, 200 X 155 cm, 1990.
Coleção Maria Camargo,
Fundação Iberê Camargo

Nesta época, fiz os primeiros desenhos do modelo vivo. Ainda queria ser pintor, embora esse desejo fosse mais um devaneio. Em 1932, voltamos para Jaguari, onde vivera parte da infância. Aí consegui meu primeiro emprego. Comecei como aprendiz no escritório técnico do 1º Batalhão Ferroviário, que construía o ramal Jaguari-Santiago-São Borja. Graças à minha aplicação e à saída inesperada do desenhistas, ocupei seu lugar e em pouco tempo assenhorei-me do desenho técnico. Durante quase dois anos, projetei bueiros, tracei rampas e declives, removi morros e aterrei vales, sem jamais ter saído do escritório. Aprendi desenho técnico na prática e nos livros. O primeiro a me cair nas mãos, Perspectiva e Sombra, de Arolo, foi para mim um quebra-cabeça. Não conseguia compreender a redução do ponto de distância: tratava-se de um livro de cenografia, sem as definições elementares de um tratado de perspectiva. Acresce ainda que o livro era escrito em espanhol, idioma que jamais estudara. Em geometria descritiva fiz o caminho inverso: da perspectiva cheguei à projeção do ponto.

Em 1936, abandonei o Ferroviário e fui para Porto Alegre. Aí, então, voltei a estudar, à noite, e ingressei como desenhista, por concurso, na Secretaria de Obras Públicas na seção de saneamento e urbanismo. Projetei inúmeras praças para cidades do interior do Estado. Elas foram construídas, mas eu jamais as vi.

Casei-me em 1939.

Em 1940, recomecei a pintar. À noite, transformava a nossa pequena sala em ateliê. Maria, esta companheira inseparável, sempre paciente, era o meu modelo. Meu interesse, minha paixão pela pintura foi crescendo. Em companhia de Vasco Prado, desenhava tipos de rua, empregadas domésticas, num galpão de madeira que ele construíra perto de casa, tão remendado como uma maloca. Arranjáva-mos modelos na Sopa-do Pobre (instituição de caridade). Para assegurar a assiduidade do nosso estudo, contratávamos um modelo por mês, como se faz com empregada doméstica. Costumava mostrar os meus desenhos ao Rasgado, que me fazia críticas judiciosas e me falava de arte. Em certo momento, tive boas indicações de Fahrion, professor já bastante conhecido e de bom renome, como artista.

Na paisagem, nessa época, procurava fixar o instante fugidio. Queria aferrar, captar o mistério que vejo envolver o real. Minha visão era fenomenológica. Trabalhava com paixão, com ímpeto, com emoção incontida, às pressas. Terminado o quadro, não o retocava, mesmo que nele descobrisse dissonâncias. Considerava o instante de criação irretocável, sagrado.

Decidido a ser pintor e sentindo a necessidade de encontrar os meios que possibilitassem tal realização, procurei Décio Soares de Souza, que conhecera meu trabalho e me estimulara a seguir a vocação. Décio, culto e sensível, mobilizou seus amigos Moysés Vellinho e Vianna Moog para me conseguirem uma bolsa de estudos do Estado. Sensível à solicitação, Oswaldo Cordeiro de Farias, então governador do Estado, concedeu-me a bolsa com que pude estudar no Rio de Janeiro.

Do ponto de vista de um pintor, nessa época Porto Alegre era uma cidade provinciana, conservadora. O modernismo não tinha ainda influído nas artes plásticas do Rio Grande do Sul. O moderno era mal interpretado pelos artistas e inteiramente desconhecido do público. A exposição de verdadeiras contrafações de modernismo - fato de triste memória - promovida por um grupo foi inaugurada para zombar da arte moderna. Esse grupo permanece anônimo até hoje. Fernando Corona e Casimiro Fernandes foram uns dos poucos que aceitaram o novo. A Editora Globo, então uma grande editora, formava na prática seus artistas gráficos com um quê de germânico. O Instituto de Belas Artes, fechado ao modernismo, intolerante, congregava a maioria dos pintores que exerciam o magistério. A Casa das Molduras mantinha uma sala de exposições, a única da cidade, dirigida pelo Pereira. Foi aí que vendi meu primeiro quadro para Nino Marsiaj, meu médico e amigo. Foi nesta mesma galeria que, posteriormente, mostrei o que fazia no Rio. Esta exposição, com muitas influências, não teve boa aceitação. Casimiro Fernandes, meu primeiro crítico, numa reportagem publicada na Revista do Globo, incentivava-me a prosseguir. Foi neste ambiente que dei meus primeiros passos na carreira de pintor. Pintor nascido fora da plantação, como erva daninha, mais pintor em todo caso. Nesta época, assim como anteriormente, a literatura era ponto culminante da criatividade gaúcha: o Erico, o Moog, o Quintana e outros.

Vim para o Rio em 1942,na condição de bolsista do Rio Grande do Sul. Viajei num avião da Condor. Foram quatro horas de expectativa. Desembarquei na Capital Federal exatamente no dia em que o Brasil declarava guerra ao Eixo. À noite, fui à casa de Portinari levado pela Sarah, mulher de Augusto Meyer, para quem trouxera uma carta de recomendação. Não gostei das pinturas de Portinari e suas observações me desconcertaram. Como perguntasse minha impressão, disse-lhe que não havia gostado. Minha franqueza o aborreceu. Ele achou natural que isso ocorresse, pois, na Europa, quando do seu prêmio de viagem, tivera reação semelhante em relação ao modernismo. Desaconselhou-me a freqüentar a Escola de Belas Artes. Falou-me de Guignard.

A seguir conheci Landucci, a quem também fiz ver os poucos trabalhos que trouxera. Habituei-me a mostrar-lhe meus trabalhos e a ouvir suas críticas. Também conheci Santa Rosa e Goeldi, figuras inesquecíveis. O tempo nos fez grandes amigos. Pouco a pouco fui penetrando no ambiente artístico do Rio. O Café Vermelhinho, no fim de tarde, era o ponto de encontro de escritores, pintores, gente de teatro, jornalistas, enfim, gente que pensava. Foi aí que me tornei amigo de Adonias Filho, Flávio de Aquino, Milton Dacosta e também da Djanira, Maria Leontina, Barão de Itararé, Bandeira, Eneida, Solano Trindade e tantos outros que me enchem o coração de saudade. O Salão de Belas Artes polarizava o interesse dos artistas. O Prêmio de Viagem era a grande meta. Nesse tempo, não existiam galerias comerciais nem se falava em marchand.

Apesar das recomendações de Portinari, ingressei na Escola de Belas Artes, pois pensava que como bolsista não podia ficar a toa. Fui para a classe de Augusto Bracet, diretor da escola. Diante da minha agressão aos padrões da academia, tomou-me das mãos os pincéis e, com louvável propósito de ensinar, transformou a índia Acarajá, o modelo, numa suave madona. De posse da paleta, tentei reencontrar o caráter do modelo, que perseguia com êxito. Frustrado e possivelmente irritado, cancelei a pintura com duas grossas pinceladas. Soube, depois, que o professor havia se ofendido com meu gesto. Eu não tivera intenção de ofendê-lo. Este incidente encerrou minha carreira universitária que apenas começara.

Depois dessa breve experiência na Escola de Belas Artes, tornei-me aluno de Guignard. Fiz dele meu professor particular. Nós morávamos numa pensão na rua Esteves Júnior. Reparti estas aulas com Elisa Bygton, que mais tarde viria a patrocinar o Grupo Guignard. Ela sempre foi uma grande amiga. Como era natural, comecei a sentir a influência de Guignard. Nessa época enviei três desenhos escolhidos por Landucci para o Salão, seção de desenho.

Nesse ano Guignard começou a dar aulas públicas no terraço da UNE na praia do Flamengo. Foi então que pensamos em formar um grupo e arranjar um lugar para trabalhar. Elisa alugou uma sala na rua Marquês de Abrantes, 4 - uma antiga gafieira, a Flor do Abacate -, que povoou de cavaletes, cadeiras, cortinas, tudo, enfim, que era necessário para o funcionamento do ateliê. Guignard, com seu grande entusiasmo, foi um mestre dedicado. Trabalhamos cerca de um ano. Junto ao ateliê funcionou um curso de História da Arte. O grupo fez uma exposição que ficou assinalada tanto pela agressão do diretório acadêmico da Escola, onde Guignard teve a ingenuidade de exibir nossos trabalhos, como pelos louvores que em compsensação merecemos da crítica. A agressão teve como pretexto uma entrevista concedida pelo grupo a Dalcídio Jurandir para Diretrizes contendo críticas ao ensino caduco da Escola.

Com a ida de Guignard para Belo Horizonte, o grupo se dissolveu e cada um seguiu o seu caminho.

Isolado, num ateliê no Edifício Róseo, e depois na Lapa, dilacerei-me para escapar das influências poderosas de Portinari, Segall e Utrillo, esta a mais marcante e duradoura. Foi nesta época que tiva a surpresa agradabilíssima de encontrar Marques Rebelo à minha espera junto à porta do Edifício Róseo, onde tinha meu ateliê. Disse logo quem era e a que vinha, com aquela sua maneira direta e rude: "Você é o único valor que surgiu nestes últimos tempos. Quero escolher um trabalho seu para a exposição que vou levar à Argentina". Achei sua apreciação exagerada. Era muito dele, ver com o coração. Desse dia em diante ficamos amigos íntimos. Graças a ele, que vendia meus quadros, pude educar e prover minha filha durante nossa estada na Europa. Marques Rebelo foi o grande embaixador da nossa cultura nos países vizinhos. Os quadros, ele os levava enrolados embaixo no braço, como suponho terem feitos os primeiros mascates.


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