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UM ESBOÇO AUTOBIOGRÁFICO

Pintor e manequim,
óleo s/ tela, 150 X 93 cm, 1987.
Coleção Maria Camargo,
Fundação Iberê Camargo
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O presente texto constitui-se de respostas às questões que me foram formuladas por Flávio de Aquino, com o propósito de incluí-las num livro de sua autoria sobre minha pintura, obra que infelizmente não foi ao prelo.
Ao publicá-lo presto uma homenagem ao judicioso crítico e querido amigo, sempre vivo na minha memória.
Nasci em 18 de novembro de 1914, no Rio Grande do Sul, em Restinga Seca, onde meu pai era o agente da Estação da Viação Férrea. Meu pai chamava-se Adelino Alves de Camargo e minha mãe, Doralice Bassani de Camargo, também ferroviária.
Comecei a desenhar com quatro anos de idade. Sentado no chão, debaixo da mesa, passava horas a fio a rabiscar.
Restinga Seca era para mim a estação da Viação Férrea do Estado, a caixa d'água; a sanga; o rancho da Bua, minha ama; o Ipo, que me trazia escanchado ao pescoço, cavalgando; a arapuca armada na moita à espreita do pássaro; o meu automóvel de brinquedo esquecido no oitão da estação sobre uma pilha de postes de ferro; o doutor Valemtim, negro retinto e pachola, permanentemente bêbado, a enticar na hora do trem com a negra Egalantina, empregada de minha mãe, com este estribilho: "No céu não luzem estrelas pretas". Ainda, o buraco fundo com seus ninhis de caturritas; o moço de culotes brancos descendo afoito o precipício para impressionar as moças; a Célia, que desenhou para mim um grande peixe colorido; a menina nua, chorando, encostada à parede; a Chata, irmã de criação e as nossas maldades. E longe, longe, longe, meu pai e minha mãe andando pequenininhos, no caminho do cerro. São lembranças, imagens de um livro de viagem.
Em 1919 ou 1920, não estou certo, meus pais foram removidos para Jaguari, onde vivi até a idade de 8 anos. Desse período são as lembranças do rio, do Naná, da Igea, amigos dos folguedos; do velho Ponciano, que me fazia espadas de talos de jerivá, temperadas no fogo; do medo do Queixinho de Rabeca, que usava uma capa a meia espalda, de forro encarnado, e trazia uma espada que brilhava ao sol. Era o guarda da cadeia, que ficava no caminho da escola. Em 1922, meus pais foram removidos para Canela, no alto da serra. Lá não havia colégio. Fui interno em Cacequi, depois em Santa Maria. Na Escola de Artes e Ofícios (1927), já então morando com a avó Chiquinha no bairro de Itararé, comecei o meu aprendizado de pintura. A princípio com o professor Frederico Lobe (1927), depois com o professor Salvador Parlagrecco. O primeiro não falava, apenas respondia o cumprimento dos alunos com um leve aceno de cabeça. O aprendizado consistia em copiar estampas tiradas de revistas. Certa vez, deu-me para copiar a figura de um leão de perfil, deitado. Uma escultura, parece. Traçada a quadrícula, comecei a desenhá-lo marcando os contornos das luzes e das sombras. O fundo, escuro, tracejei-o com vigor. Aí, então, senti às minhas costas a sua presença e ouvi dizer, num tom seco: "Chove!" Fiquei paralisado, interdito, sem compreender. "Faça outra vez", acrescentou. Contrafeito, colei uma nova folha de papel no chassis, quadriculei-o e refiz o leão. E novamente escureci o fundo com vigorosos traços de carvão. E mais uma vez senti a sua presença, às mihas espaldas, e o ouvi repetir: "Chove!" E depois: "Faça outra vez". E tudo isso ainda se repetiu uma terceira vez. Finalmente, ele esfumaçou com o polegar as achúrias, "a chuva", como chamava.
No ano seguinte, a escola substituiu-o pelo professor Parlagrecco. Tive, então, um mestre afável, que me estimulou muito. Embora sua orientação também fosse acadêmica - faziam-se cópias, porém sem as facilidades que a quadrícula oferece -, ele nos preparava para o modelo vivo. Cheguei a fazer um desenho do gesso. Esse aprendizado educou-me a mão e a visão.
Parlagrecco era paisagista. Numa manhã de sol, assisti, emocionado, a ele fazer uma manchinha, como dizia, numa tampa de caixa de charuto. Foi uma revelação vê-lo criar o céu, as nuvens, as unhas-de-agato, a água salpicada de reflexos. Um mundo iluminado. Nesse ano meu trabalho foi fecundo, apaixonado. Produzi muito. Sempre procurei fazer o melhor possível, sempre persegui o absoluto. No fim do ano, a quase totalidade dos trabalhos expostos eram de minha autoria. Destes trabalhos restam apenas um óleo e três desenhos a creiom, que foram recolhidos por meu amigo de infância Edmundo Cardoso, dentre os salvados do incêndio que consumiu o acervo da escola. "Assim vais ganhar o prêmio de viagem à Europa", disse Parlagrecco acariciando-me a cabeça. Manifestava o seu entusiasmo pelos meus progressos. Deram-me um prêmio de 50 mil réis e a promessa de uma viagem ao Rio, que não se realizou.
Inesperadamente, fui obrigado a deixar a Escola de Artes e Ofícios devido a desentendimento com o professor de Letras, um marista. Trasferi-me para o Ginásio de Santa Maria, com outros propósitos. Renunciava assim a minha carreira de artista. Breve, porém, abandoneio ginásio. Esta minha decisão causou uma grande tristeza a meu pai. Queria ver-me doutor. Para ele era o fim de um sonho muito acariciado. Quantas vezes abraçara-me dizendo com voz carregada de emoção: "Meu filho, estuda, estuda. Quero que sejas um grande homem". Esta lembrança ainda hoje me dói. Dói pela mágoa e pelo desapontamento que lhe devo ter causado. A partir de então vivi embalado pelas promessas de um emprego na Viação Férrea, meta da maioria dos filhos de ferroviários. Morávamos na estação da Boca do Monte, lugarejo de poucas casas, espalhadas em torno da estação e ao longo de uma estrada poeirenta. Aí, numa dessas tardes intermináveis - na mocidade e na campanha os dias parecem mais longos - , encontrei um andarilho, de barbas e cabelos longos, como são os personagens dos contos para criança, que, avançando para mim, tomando-me das mãos, começou a dizer a altos brados: "Meu filho, tu és um grande artista, o mundo falará de ti!" Procurei acalmá-lo. Minha tentativa não fez mais do que excitá-lo e fazê-lo repetir, agora, com mais veemência: "És um grande artista, o mundo todo falará de ti!" Depois, como arauto que era da loucura, partiu na sua caminhada sem destino.
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