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  REGINA VATER

“Conheci Iberê quando ainda estudava com o Schaeffer. Os dois eram amigos. No estúdio do Schaeffer também fiquei muito amiga da Cenira. Cenira, uma descendente de índios e negros, elegante e simpática, que anos mais tarde viria a ser secretária da Elis Regina, também estudava desenho com o Frank. Naquela época, ela trabalhava como babá na casa do Dr. Décio de Souza, outro gaúcho e outro amigo do Iberê.

Não sei se de ouvir o Frank ou de ouvir o Dr. Décio falar no Iberê, eu resolvi experimentar ser sua aluna. Tratei então de procurá-lo numa escolinha de artes na Praia Vermelha onde ele dava aulas.

Eu era muito tímida. O Iberê tampouco falava muito na sala de aulas. Aliás, depois eu descobri porque ele detestava ensinar na Praia Vermelha. Disse-me um dia porque a classe era quase totalmente preenchida por senhoras desocupadas da classe média alta.

Lá, eu conheci a Elizabeth (da qual não me lembro o sobrenome) e a Cristina, uma das gêmeas Barbosa. A Elisabeth, que tinha mais ou menos uns vinte anos, que nem eu, ficou muito minha amiga. E com ela e a Cristina começamos a freqüentar o Ateliê do Iberê em Botafogo, ávidas de desencavar mais conhecimentos do mestre. Mas no ateliê, ele também não falava muito. A nossa ocupação por lá, então, era limpar seus pincéis, palhetas e chapas de gravura em metal. O Ateliê tinha uma ordem hospitalar. Apesar da pintura parecer sair de dentro de um tufão de tintas, tudo em volta era muito impecável e limpo.

Nos fins de semana voltávamos a aparecer, desta vez para ver filmes sobre o grupo Cobra, com relação aos quais ele era o entusiasmado número um. Creio que quem arranjava esses filmes para ele, na embaixada da Holanda, era o Carlos Zilio, que também sempre aparecia por lá nos fins de semana. O Vergara também andava muito por lá. Por ser eu muito tímida e não dar um pio, certamente todo mundo me considerava uma tolinha.

Minha vantagem é que eu prestava uma enorme atenção, e o Iberê demonstrava acreditar no meu talento.

Lembro-me dele me dizer: "Guria, quando alguém duvidar de uma obra tua, e você também duvidar, acata então a dúvida. E se alguém tiver certeza sobre alguma obra tua, e você também tiver certeza, fica então com a certeza. Mas se alguém duvidar de algo que você fez e você tiver certeza, você tem que ficar com a tua certeza".

Acho que foi na escola de arquitetura e no ateliê do Iberê que desenvolvi um gosto por discussões políticas.

As conversas sobre os destinos do Brasil e sobre a cafajestada que sempre administrou o nosso país eram extremamente calorosas. E varavam aquelas tardes intermináveis e inconfortáveis de domingo, quase invadindo as noites. Digo inconfortáveis, porque tudo o que tínhamos para sentar eram uns banquinhos de madeira que deixavam as nossas costas super doendo. Mas, como recompensa, vez por outra, o papo ultra esquentado era regado com os cafezinhos da Maria, que sempre acompanhou quase calada as irônicas observações do marido.

Sei por ouvir de rabo do ouvido, que o Iberê conhecia muita gente no poder: embaixadores, generais e alguns políticos que ajudavam a circular o seu trabalho no Brasil e no exterior. Mas confesso que nunca prestei atenção nos nomes desses dignatários.

Mas apesar de saber que ele vendia bem a sua obra, nunca notei no Iberê nenhuma ganância por mercado ou por poder dentro da "entourage" das artes. Sempre o vi vivendo "na dele", tendo como gol principal sua luta corporal com as telas enormes, nas quais cristalizava muita dramaticidade e cor. Se ele almejava algo mais era que o Brasil entrasse nos trilhos.

O único amigo seu poderoso que conheci pessoalmente foi o Dr. Décio, que constantemente dava um "help telefônico" às suas persistentes paranóias. Sim, sempre percebi que o Iberê era muito paranóico. Mas isso a gente levava fazendo graça, considerando-o um excêntrico.

Realmente, Iberê era ímpar. Tantas vezes nós chegávamos no ateliê e nos deparávamos com um quadro com que ele vinha lutando por semanas, totalmente destruído. Sem dó e sem piedade, ele passava a espátula por cima, retirando toda a imensa e grossíssima capa de tinta que havia configurado a peça e, assim, em cima desse escombro, ele começava tudo de novo.

Pensando bem, acho que foi por ser capaz disso que ele pôde ter sobrevivido a tantos revezes cruéis em sua vida.

Depois da minha individual em 1964, que fiz graças à minha jovem colega Elizabeth, intensifiquei as minhas idas ao ateliê e foi ali que meu trabalho estourou numa estética naquela época denominada de "Nouvelle Figuration". Comecei então a ganhar um prêmio atrás do outro, e minha obra deslanchou numa farta série de exposições.

Iberê indubitavelmente foi uma das minhas parteiras na arte. As outras foram o Oiticica e a Ligia Clark. Mas, estes só apareceram na minha vida alguns anos mais tarde.

Mesmo depois que fui para São Paulo, não perdi o contato  com o Iberê. Nessa época, e já por muitos anos, ele pintava no seu último ateliê, creio que na rua das Palmeiras, em Botafogo. Ateliê este para o qual ele mandou construir paredes duplas para abafar o ruído vindo da rua.

Lembro-me que quando ganhei o prêmio de viagem do Salão Nacional de Arte Moderna, fiz uma individual na galeria Grupo B, que era ao lado do seu estúdio. Um dia eu estava na galeria e ele apareceu no seu inefável macacão bege todo lambuzado de tinta. Viu a mostra com a maior calma e cuidado e na saída me disse: - “Guria, você me enche de orgulho!”. Nessa época eu estava desenhando sobre fotografias. E o elemento fotografado eram cordas com nós. Eu havia começado a desenhar essa temática em 1971, sobre sacos de super-mercado.

A última vez que vi Iberê e Maria foi numa mostra em uma galeria da Barra da Tijuca. Isto foi nos meados dos oitenta. Por essa época, ele já portava um senho mais carregado e um rictus ultra amargo. Maria sempre ao seu lado. Atenta e amiga. Recordo-me o que ele me disse:

-"Guria, foi bom você ter se mudado para os Estados Unidos, porque já venderam este país para a matriz há muito tempo. E o pior é que venderam a preço de bananas."

Não sei como é que recebi este amargo comentário. Ali,  naquelas circunstâncias, de uma vernissage cheia de convidados, não dava para explicar com detalhes porque eu me havia mudado para os Estados Unidos. Não dava para deixar claro, em poucas palavras, de que e como eu havia me apaixonado vertiginosamente por um artista americano. Artista esse que além de ser uma pessoa maravilhosa e talentosa me amava também e muito e tinha um bonito respeito pela minha arte. E que dessa coisa rara de se relacionar com um cara metade, olho no olho, de igual para igual e com as sensibilidades afiadas e entonadas, eu não iria abrir mão de maneira nenhuma, mesmo que tivesse que escolher o degredo”.

 
 
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