Assim como os ciclistas,
seres que pedalam muitas vezes sem rumos, tampouco metas,
as idiotas esperam a vida passar. Sentadas em bancos de
praça, nuas e disformes, com os rostos de expressões
bobas - irritantes até -, essas personagens marcam
a que é considerada a fase mais assustadora da
pintura iberiana. As faces sem graça e os olhares
perdidos no horizonte, conjugados à feiúra
dos corpos que os sustentam, são de uma frontalidade
constrangedora, e parecem remeter à ignorância
que sorri.
Na verdade, Iberê, novamente, estava representando
o seu próprio momento de vida, de final de vida.
Ele estava no início dos anos 90 e sabia que o
câncer que havia sido diagnosticado não tardaria
em lhe tomar a vida. Junto com as idiotas, passou, então,
a enterrar as suas lembranças. Elementos caros
à memória do artista, como o carretel e
as próprias bicicletas, foram, paulatinamente,
sendo sugados pela terra. Tudo estava caindo sobre ela,
sendo por ela consumido.A respeito dessas figuras e composições,
disse, certa vez:
As figuras que ora povoam os meus quadros (elas mesmas
são os quadros) nascem da saga, da vida que dói.
Elas envolvem-se na tristeza dos crepúsculos dis
dias de minha infância, guri criado na solidão
da campanha do Rio Grande do Sul.
Apropriando-se das idiotas, dessa figuras grosseiras e
largadas à própria sorte, Iberê as
transformou em suas mensageiras, refletindo a solidão,
o medo do fim e da morte, a ação erosiva
do tempo. |
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A idiota,
óleo s/ tela, 155 X 200 cm, 1991.
Coleção Maria Camargo, Fundação
Iberê Camargo |