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Os ciclistas são
personagens incorporados à obra iberiana nos anos
80, quando o artista retorna a Porto Alegre. Essa volta,
na verdade, foi impulsionada por uma tragédia que
marcaria profundamente a sua vida.
No dia 5 de dezembro de 1980, voltando para casa com sua
secretária, Iberê foi abordado na rua por
um homem sem camisa e sapatos, que o agrediu verbalmente.
Irritado, o artista retrucou e foi violentamente empurrado
contra o chão. Iberê, que portava uma arma,
sacou-a, ameaçando o agressor. Este mostrou-se
mais irado e violento e o pintor, entre o medo e o nervosismo,
atirou. Iberê foi preso em flagrante e, mais tarde,
libertado por legítima defesa. A repercussão
do caso foi imensa, e muitos foram os veículos
de comunicação e então amigos que
repudiaram a atitude do artista.
Sentindo-se só e abandonado, resolveu voltar ao
Rio Grande do Sul, ao pátio de sua infância,
como costumava referir-se. Sobre esse retorno, disse certa
vez: "Voltei para o Sul porque a saudade estava grande
demais. À medida que envelhecemos, parece que a
infância fica mais perto. Sentimos vontade de reencontrar
os primeiros amigos e tudo que foi nosso".
Indo morar no bairro Cidade Baixa, próximo ao Parque
da Redenção, Iberê iniciou um íntimo
convívio com o parque e com seus freqüentadores,
sobretudo com os ciclistas. Velozes e muitas vezes sem
metas, a não ser pedalar, os ciclistas personificam
um pouco do sentimento do próprio artista. E, ao
serem representados pedalando em direção
à esquerda, parecem - como já apontou a
crítica de arte Lisette Lagnado - estar buscando
o passado, as reminiscências da infância,
o distante. Sobre isso, Iberê dizia:
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Ciclistas,
óleo s/ tela, 200 X 155 cm, 1990.
Coleção Maria Camargo,
Fundação Iberê Camargo
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Sem título,
óleo s/ tela, 40 X 57 cm, 1991.
Coleção Maria Camargo,
Fundação Iberê Camargo
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- Sou
um andante. Carrego comigo o fardo do meu passado. Minha
bagagem são os meus sonhos. Como meus ciclistas,
cruzo desertos e busco horizontes que recuam e se apagam
nas brumas da incerteza.
Pedalando não por acaso em um "Parque da Redenção",
os ciclistas de Iberê Camargo refletem muito do
próprio pintor: um ser em busca de suas verdades
e raízes. E, juntamente com as idiotas, marcam
os personagens mórbidos que povoam o imaginário
do artista no final de sua vida. |
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